sexta-feira, 6 de março de 2026

Comungar pela primeira vez...

 

A PRIMEIRA COMUNHÃO

Quando entrei na escola primária para a primeira classe também comecei a ir à catequese, “à reza”, como então se dizia. A minha primeira catequista foi a Maria Teresa, filha da Maria do Cevada, que vivia na Rochinha. Como era hábito nesse tempo, a catequista ensinava a catequese na sua casa, então foi lá, no terreiro da casa dela que aprendi a reza para a Primeira Comunhão.

Eu já sabia muitas coisas da catequese porque a mãe, que antes de se casar também era catequista, já me tinha ensinado; sabia me benzer e rezar o Pai Nosso, a Avé-Maria e a Santa-Maria, o Anjo-da guarda…; também já estava habituada a ir à igreja porque desde pequena a avó Serafina levava-me sempre com ela quando ia à missa. Portanto, começar a ir à reza não foi uma tão grande novidade, fazia parte do percurso de crescimento, e a mãe valorizava muito a nossa educação cristã.

E assim chegou a altura da minha Primeira Comunhão.

O meu vestido branco era curto, pelo joelho e veio da América junto com outras coisas que a tia Joana (irmã da avó Silvéria) de vez em quando mandava para a mãe. O vestido tinha manga curta, de balão; então Teresinha do Mário que era uma costureira habilidosa fez umas mangas compridas que prendiam com elástico debaixo da manga curta e assim já tinha os braços tapados… (não podia ir de braços “à vela” receber a hóstia sagrada!!...). Parece que ainda estou a ver-me à volta da mãe e de Teresinha enquanto destinavam a minha indumentária da Primeira Comunhão, eu de olhos bem abertos e curiosa para saber como ficaria o meu vestido depois dos arranjos feitos.

A mãe comprou-me uns sapatos brancos, uns sapatos de boneca que abotoavam ao lado com um botão em forma de pérola, e também umas meias brancas que me chegavam quase até ao joelho. Também me comprou um véu branco, de tule, com florinhas e lacinhos bordados em toda a volta, semelhante ao que as raparigas maiores usavam para ir à missa.

No dia da Primeira Comunhão, a mãe não foi comigo à igreja porque não tinha com quem deixar os meus irmãos mais pequenos, a Clara tinha pouco mais de um ano e o João Carlos já estava para nascer. Quem me acompanhou foi a Balbina, comadre e amiga da mãe, nossa vizinha do pé da porta. E lá fui eu cheia de alegria, viver aquele momento tão importante da minha vida, a minha Primeira Comunhão, o dia em que comunguei pela primeira vez. Um momento feliz que me ficou para sempre na lembrança!... 


 

Funchal, 06-03-2026.

 

 


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Virgem do Parto, ó Maria...


 A MISSA DO PARTO
 

A mãe sempre foi madrugadora, tanto de Verão como de Inverno, por isso era com naturalidade que se levantava cedo para ir à Missa do Parto. E não perdia nenhuma!

Deixava-nos a dormir e lá ia ela com as vizinhas para a igreja, alegrar a voz e a alma com aqueles cânticos que sabia de cor e dos quais tanto gostava.

Depois, quando a missa acabava, subiam em magote o caminho da Vargem e entravam em casa de uma delas para aquecerem a garganta com um licorzinho ou o tal groguezinho de aguardente.

Tantas vezes acordei com as vozes da mãe e das vizinhas na nossa cozinha quando voltavam da Missa do Parto: a Mariazinha do Ferreirinha, a Mariazinha Figueira, às vezes a Sousa… Eu não as via, mas sabia que saíam da nossa cozinha com as faces rosadas do café quente mais o tal groguezinho de aguardente de caldeira, às vezes misturada com mel de abelhas, que nunca faltava no armário da nossa cozinha.

Mais tarde, depois de todos nós já andarmos na nossa vida, a mãe contava-me como tinha sido a Missa do Parto:

- Hoje, quando saí da missa, passei pela casa de minha prima Conceição (a do tio Francisco); comi uma fatia de bolo e tomei um grogue de whisky, soube-me bem!... Estava uma frieza!!!...

Numa outra ocasião…

- Quando vinha da Missa do Parto, a Conceição do Manuel Joaquim convidou-me para ir a casa dela; a Conceição é sempre uma pessoa amorável e amiga de falar comigo!...

Ao contrário da mãe, a sua irmã Maria Segunda, nossa tia, não costumava ir à Missa do Parto, embora fosse católica de alma e coração. De acordo com a mãe, a tia desde sempre gostou de dormir de manhã, e assim continuava mesmo sendo já de idade. Por isso, mesmo vivendo perto da igreja não se levantava cedo para ir à missa.

Também como dizia a mãe, nesse sentido eu saí à tia por gostar de dormir de manhã. E é mesmo verdade, por isso não me levanto cedo para ir à missa. Mas sei cantar todos os cânticos: cantava-os na missa do dia de domingo, que o Sr. Padre Teixeira celebrava sempre como Missa do Parto.


E são lembranças boas como esta que me acompanham por estes dias!...

 
              Virgem do Parto, ó Maria

Senhora da Conceição

Dai-nos as Festas Felizes

A Paz e a Salvação!...   


Funchal, 17 de Dezembro, de 2025 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 4 de maio de 2025

Minha mãe!...

 

A MÃE 

Alegre, risonha e de sorriso fácil, a mãe tinha alma de artista.

Tinha uma voz de rouxinol e cantava lindamente cantigas que sabia desde o seu tempo de pequena.

Contava-nos histórias ou acontecimentos sempre com sentido de humor e imitava com perfeição a maneira de falar das pessoas o que nos fazia rir às gargalhadas.

Tudo o que fazia era com perfeição. Bordava como se estivesse a pintar o caseado, as bastidas, o ponto-francês, o ponto-sombra ou os garanitos. Fazia crochet como se fosse renda e embelezava a beira das toalhas da cozinha.

Deitava remendos nas calças do pai (o pai rompia sempre as calças nos joelhos porque apanhava erva com um joelho apoiado no chão), cosidos a ponto-francês de um lado e de outro que ficavam tão bonitos como se tivesse sido à máquina.

Sabia cuidar do forno e amassar o pão, tendia as rosquilhas e os maios com esmero e fazia os bolos-de-noiva tão macios e redondinhos, como mais ninguém os fazia.

Cozia o arroz branco temperado com um pau de canela, nunca media a água e acertava sempre: o arroz da mãe nunca se esquece!

Ensinava-nos a ler, ditava o ditado e perguntava as tabuadas e ensinava-nos a fazer contas de cabeça.

Contava-nos as parábolas e passagens da Bíblia como se fosse uma história e tinha sempre um provérbio adequado quando nos queria dar uma lição sobre qualquer assunto.

Ensinou-nos a nos benzer, a rezar o terço, a Salvé-Rainha e demais orações.

Dizia-nos sempre: – Quem anda com Deus, Deus ajuda!... É a Fé que nos salva!

A nossa Mãe!...


sábado, 5 de abril de 2025

Pergaminhos afectivos


 

UMA IDA À CIDADE

No Verão de 1975, quando fiz catorze anos, fui à cidade com a tia.

Fomos no carocha da tia, penso que numa das poucas vezes que ela levou o seu carro ao Funchal, porque mais tarde já ia sempre de camioneta.

Ficámos em casa da D. Maria José, uma enfermeira muito amiga da tia, que um tempo depois veio a ser a minha madrinha do Crisma.

Eu estava a crescer e precisava de sapatos porque os que tinha já me estavam apertados, o meu dedo grande do pé já andava encolhido, e além disso, também queria andar à moda como as outras raparigas do colégio. Portanto, a primeira coisa a fazer foi comprar os meus sapatos.

A tia levou-me à Sapataria Inglesa, na Rua da Carreira, e ali escolhi uns sapatos a meu gosto, porque até essa idade sempre tinha usado os escolhidos pela mãe, que os comprava quando ia à cidade e antes de ir me tirava a medida do pé com um lápis, numa folha de papel da venda. Senti-me já uma rapariga grande, até mais alta do que era, com os meus sapatos novos de tacão alto escolhidos por mim.

Resolvida a compra dos sapatos, fomos logo de seguida à Papelaria do Colégio onde a tia me comprou diversos materiais escolares para o meu 4º Ano do Liceu que no mês de Outubro seguinte se iria iniciar: uma capa de pele, que escolhi vermelha e com bandeirinhas de diferentes países, para eu levar os livros no braço à semelhança das raparigas dos anos mais avançados do colégio; um rolo de papel em tons de vermelho-escuro para forrar os livros, e alguns cadernos (daqueles que traziam as fábulas na contracapa); um bom compasso de marca Kern (numa caixinha vermelha completa com todos os acessórios), tinta-da-china, guaches e pincéis, tudo o que era preciso para as aulas de Desenho.

É bem possível que a tia me tenha comprado mais qualquer coisa ou mesmo alguma peça de roupa, mas o que realmente para mim teve um grande valor foram os meus sapatos de tacão alto e os materiais escolares que a tia me comprou. A capa de pele e o compasso resistiram ao tempo e permanecem arrumados junto com alguns livros e mais coisas minhas na cantoneira da nossa casa, como testemunhas afectivas do meu tempo de escola.

São fragmentos da minha vida e das pessoas importantes que por ela passaram, valiosos pergaminhos da minha história. 


 

 

Funchal, 05 de Abril de 2025

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Viva o Chão dos Louros!...

 

Do Chão dos Louros à Encumeada

De vez em quando gosto de ir ao bar da Encumeada tomar um café ou uma cerveja fresca, principalmente no Verão. Gosto de me sentir abraçada pelo verde enquanto vou subindo por aqueles lugares cujos nomes conheço tão bem como a palma da minha mão.

Também gosto de ir até ao Calhau ou à Fajã da Areia onde posso olhar o azul e a imensidão do mar enquanto vou ouvindo o marulhar das ondas e me deixo inebriar com o inigualável cheiro a maresia, mas subir até à Encumeada desperta-me sempre uma sensação diferente.

O mar esteve desde sempre mais longe de mim, sempre o olhei com receio e muito respeito. As árvores estavam ali mesmo, tão perto de casa e dos lugares por onde eu habitualmente me movimentava, como os pinheiros do Lombo das Faias ou da Achada do Beirão, aonde eu ia com os meus irmãos e outros pequenos buscar saruga, pinhas e gravetos secos para acender o lume.

O Lombo do Atalho, os Cabeceiros e as Lajas, as nossas Fajãs ou os Brimbeteiros são nomes que entraram no meu vocabulário desde que aprendi a falar, lugares que me habituei a ver como fazendo parte de nós e da nossa vida.

Nos dias de hoje, quando começo a subir as Covas e passo pelas Caldeirinhas, as curvas da estrada abrem-se para me deixar passar e saúdam-me sorridentes e felizes porque não me esqueci delas. Nas bermas, os imponentes castanheiros que mesmo de olhos fechados eu sei onde estão, e os loureiros viçosos de ramos abertos sobre a estrada, parecem querer abraçar-me e convidam-me a desfrutar do cheiro a floresta que tão bem conheço. Até um velho pereiro, completamente cheio de barbas e com os ramos retorcidos a pender sobre uma brenha de silvado, me faz um aceno de cabeça como que a dizer “Ainda estou aqui e sei que te lembras de mim!…”.

E há um pinheiro que já não existe, deverá ter morrido com a doença que há alguns anos assolou os pinheiros, mas continua no mesmo lugar onde existiu, a abraçar as minhas lembranças. Um pinheiro altíssimo com o tronco muito grosso, onde havia sido pintada uma larga faixa branca a fazer a vez de marco, sinalizando a beira da estrada. Quando nos dias pequenos eu ia do Funchal para São Vicente e a camioneta chegava já de noite, era aquele pinheiro que me alegrava o coração, indicando-me que já estava a chegar a casa.     

A estrada continua a abrir-se para me deixar passar e não me deixa esquecer que a Cova do Lanço é ali mesmo no lado esquerdo; num abrir e fechar de olhos sou abraçada por aquela curva familiar que imediatamente se transforma na comprida Ponte Ladeira que antecede o magnífico Chão dos Louros: o Chão dos Louros das cantigas da minha infância, dos passeios do colégio e dos romeiros na segunda-feira do setembro.

No fio da memória ecoa a minha voz de criança a cantar “Viva o Chão dos Louros, viva a Encumeada…” e vejo-me de mão dada com Agostinho, ainda mais criança do que eu, a cantar debaixo da vinha da nossa casa.

Agora estamos os dois a chegar à Encumeada, e lá nos sentamos a tomar uma cervejinha acompanhada com o desfiar de algumas das nossas muitas lembranças que uma após outra nos fazem sorrir de saudade.

 

Funchal, 21 de Julho de 2024        

domingo, 31 de dezembro de 2023

Viva o Ano Novo!...

 

VIVA O ANO NOVO

O Ano Novo ou o Dia de Jesus como então se dizia, era festejado em casa como qualquer dia de festa.

Na véspera fazia-se uma amassadura de pão fresco porque o da Festa já se tinha acabado; na caixa do pão ainda havia bolos de noiva, e também ainda havia broas e bolo preto.  

Era dia santo de guarda, sendo por isso obrigatório irmos à missa. Depois vinha o almoço, com todos sentados à volta da mesa da cozinha: havia um galo fresco arranjado para este dia e carne de vinha d´alhos que se comia com o pão de rosquilha fresco amassado na véspera.

Alguns vizinhos vinham de camioneta ao Funchal para verem o fogo-de-artifício, mas nós ficávamos em casa. Como poderia a mãe sair de casa para o Funchal com tantos pequenos, para só regressar de madrugada?!... Era trabalho que não valia a pena!... Mas ninguém se aborrecia com isso!... Deitávamo-nos cedo como habitualmente, sabendo que no outro dia já seria um novo ano.

O silêncio da noite era quebrado aqui e ali pelos estalos das bombas que os rapazes iam atirando e rebentando no largo da ponte e à meia-noite também se ouvia fogo-de-estalo, mas a essa hora nós já estávamos no melhor do nosso sono, por isso não nos dávamos conta do barulho das bombas e dos foguetes.

No outro dia quando acordávamos, a mãe contava-nos como tinha sido a passagem do ano: acordava com os estalos dos foguetes, levantava-se, abria a janela da sala e bebia um grogue de aguardente (da boa, feita da borra do vinho e que sempre havia em casa!...) à saúde do Ano Novo. Depois voltava a deitar-se e acordava já de manhã para nos fazer a matina.

Que maravilha de passagem de ano!... Não víamos o fogo-de-vista mas estávamos no calor da nossa casa, com o pai e a mãe à nossa volta, aquecendo e embalando os nossos sonhos para o Novo Ano que chegava!...

Meio século passado, continuamos a sonhar, outros sonhos que não os de criança, mas o pai e a mãe continuam espiritualmente ao nosso lado, a dar-nos força e a elevar-nos até ao melhor daquilo que sonharam para nós. Como se ainda estivéssemos juntos, numa passagem de ano qualquer, do tempo em que éramos crianças!  

 

Funchal, 31 de Dezembro de 2023  

 

 

 

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Não cortes o teu cabelo!...

CABELO À JOÃOZINHO

Nesse tempo dos anos sessenta, a moda do cabelo era o corte à Joãozinho, o cabelo bem curto com as orelhas à mostra, mas na nossa casa cabelo curto era só para os rapazes e não para as raparigas.

O pai dizia que as pequenas de cabelo curto pareciam cabeças de toutinegra e se calhar a mãe também não gostava de nos ver com o cabelo muito curto, ela que desde pequena sempre teve um cabelão comprido e o usava com duas tranças enroladas, presas com agulhetas e pentes, num bonito penteado na parte de trás da cabeça.  

Eu também queria o meu cabelo cortado à moda, como outras pequenas, mas a mãe não ia atrás de modas, cortava-me o cabelo sempre de beirinha e deixava-o ligeiramente comprido, um pouco acima dos ombros e a tapar as orelhas.

Às vezes a mãe queria me fazer duas tranças, mas eu não deixava porque mais nenhuma pequena andava de tranças e eu tinha vergonha de me ver diferente das outras.

Depois de mais crescida, até para cortar as pontas eu tinha um tormento porque o pai não deixava que eu cortasse o cabelo. Quando andava no colégio já o tinha comprido, um pouco abaixo dos ombros, mas não deixava que crescesse muito, de vez em quando cortava um bocadinho, mas nada que desse muito nas vistas, para que o pai não percebesse.

Assim que aos dezasseis anos vim estudar para o Liceu também comecei a tornar-me dona do meu cabelo. Nessa altura as raparigas usavam uns cortes engraçados e eu também queria um corte assim moderno. Então lá fui cortando um bocadinho de cada vez, primeiro a franja, depois no comprimento até me ficar bem por cima dos ombros.


Um dia, enchi-me de coragem, fui ao cabeleireiro e cortei-o mesmo curto. Foi o meu primeiro grito de independência!

Cheguei a casa pensando que iria haver um sermão, mas o pai olhou e não me disse nada. 

Essa foi a única vez que o cortei mais curto; a partir daí deixei-o crescer mais um pouco e passei a usá-lo ligeiramente mais comprido. 

Tornei-me finalmente senhora do meu cabelo!...

 

Funchal, 08 de Setembro de 2023