quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Virgem do Parto, ó Maria...


 A MISSA DO PARTO
 

A mãe sempre foi madrugadora, tanto de Verão como de Inverno, por isso era com naturalidade que se levantava cedo para ir à Missa do Parto. E não perdia nenhuma!

Deixava-nos a dormir e lá ia ela com as vizinhas para a igreja, alegrar a voz e a alma com aqueles cânticos que sabia de cor e dos quais tanto gostava.

Depois, quando a missa acabava, subiam em magote o caminho da Vargem e entravam em casa de uma delas para aquecerem a garganta com um licorzinho ou o tal groguezinho de aguardente.

Tantas vezes acordei com as vozes da mãe e das vizinhas na nossa cozinha quando voltavam da Missa do Parto: a Mariazinha do Ferreirinha, a Mariazinha Figueira, às vezes a Sousa… Eu não as via, mas sabia que saíam da nossa cozinha com as faces rosadas do café quente mais o tal groguezinho de aguardente de caldeira, às vezes misturada com mel de abelhas, que nunca faltava no armário da nossa cozinha.

Mais tarde, depois de todos nós já andarmos na nossa vida, a mãe contava-me como tinha sido a Missa do Parto:

- Hoje, quando saí da missa, passei pela casa de minha prima Conceição (a do tio Francisco); comi uma fatia de bolo e tomei um grogue de whisky, soube-me bem!... Estava uma frieza!!!...

Numa outra ocasião…

- Quando vinha da Missa do Parto, a Conceição do Manuel Joaquim convidou-me para ir a casa dela; a Conceição é sempre uma pessoa amorável e amiga de falar comigo!...

Ao contrário da mãe, a sua irmã Maria Segunda, nossa tia, não costumava ir à Missa do Parto, embora fosse católica de alma e coração. De acordo com a mãe, a tia desde sempre gostou de dormir de manhã, e assim continuava mesmo sendo já de idade. Por isso, mesmo vivendo perto da igreja não se levantava cedo para ir à missa.

Também como dizia a mãe, nesse sentido eu saí à tia por gostar de dormir de manhã. E é mesmo verdade, por isso não me levanto cedo para ir à missa. Mas sei cantar todos os cânticos: cantava-os na missa do dia de domingo, que o Sr. Padre Teixeira celebrava sempre como Missa do Parto.


E são lembranças boas como esta que me acompanham por estes dias!...

 
              Virgem do Parto, ó Maria

Senhora da Conceição

Dai-nos as Festas Felizes

A Paz e a Salvação!...   


Funchal, 17 de Dezembro, de 2025 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 4 de maio de 2025

Minha mãe!...

 

A MÃE 

Alegre, risonha e de sorriso fácil, a mãe tinha alma de artista.

Tinha uma voz de rouxinol e cantava lindamente cantigas que sabia desde o seu tempo de pequena.

Contava-nos histórias ou acontecimentos sempre com sentido de humor e imitava com perfeição a maneira de falar das pessoas o que nos fazia rir às gargalhadas.

Tudo o que fazia era com perfeição. Bordava como se estivesse a pintar o caseado, as bastidas, o ponto-francês, o ponto-sombra ou os garanitos. Fazia crochet como se fosse renda e embelezava a beira das toalhas da cozinha.

Deitava remendos nas calças do pai (o pai rompia sempre as calças nos joelhos porque apanhava erva com um joelho apoiado no chão), cosidos a ponto-francês de um lado e de outro que ficavam tão bonitos como se tivesse sido à máquina.

Sabia cuidar do forno e amassar o pão, tendia as rosquilhas e os maios com esmero e fazia os bolos-de-noiva tão macios e redondinhos, como mais ninguém os fazia.

Cozia o arroz branco temperado com um pau de canela, nunca media a água e acertava sempre: o arroz da mãe nunca se esquece!

Ensinava-nos a ler, ditava o ditado e perguntava as tabuadas e ensinava-nos a fazer contas de cabeça.

Contava-nos as parábolas e passagens da Bíblia como se fosse uma história e tinha sempre um provérbio adequado quando nos queria dar uma lição sobre qualquer assunto.

Ensinou-nos a nos benzer, a rezar o terço, a Salvé-Rainha e demais orações.

Dizia-nos sempre: – Quem anda com Deus, Deus ajuda!... É a Fé que nos salva!

A nossa Mãe!...


sábado, 5 de abril de 2025

Pergaminhos afectivos


 

UMA IDA À CIDADE

No Verão de 1975, quando fiz catorze anos, fui à cidade com a tia.

Fomos no carocha da tia, penso que numa das poucas vezes que ela levou o seu carro ao Funchal, porque mais tarde já ia sempre de camioneta.

Ficámos em casa da D. Maria José, uma enfermeira muito amiga da tia, que um tempo depois veio a ser a minha madrinha do Crisma.

Eu estava a crescer e precisava de sapatos porque os que tinha já me estavam apertados, o meu dedo grande do pé já andava encolhido, e além disso, também queria andar à moda como as outras raparigas do colégio. Portanto, a primeira coisa a fazer foi comprar os meus sapatos.

A tia levou-me à Sapataria Inglesa, na Rua da Carreira, e ali escolhi uns sapatos a meu gosto, porque até essa idade sempre tinha usado os escolhidos pela mãe, que os comprava quando ia à cidade e antes de ir me tirava a medida do pé com um lápis, numa folha de papel da venda. Senti-me já uma rapariga grande, até mais alta do que era, com os meus sapatos novos de tacão alto escolhidos por mim.

Resolvida a compra dos sapatos, fomos logo de seguida à Papelaria do Colégio onde a tia me comprou diversos materiais escolares para o meu 4º Ano do Liceu que no mês de Outubro seguinte se iria iniciar: uma capa de pele, que escolhi vermelha e com bandeirinhas de diferentes países, para eu levar os livros no braço à semelhança das raparigas dos anos mais avançados do colégio; um rolo de papel em tons de vermelho-escuro para forrar os livros, e alguns cadernos (daqueles que traziam as fábulas na contracapa); um bom compasso de marca Kern (numa caixinha vermelha completa com todos os acessórios), tinta-da-china, guaches e pincéis, tudo o que era preciso para as aulas de Desenho.

É bem possível que a tia me tenha comprado mais qualquer coisa ou mesmo alguma peça de roupa, mas o que realmente para mim teve um grande valor foram os meus sapatos de tacão alto e os materiais escolares que a tia me comprou. A capa de pele e o compasso resistiram ao tempo e permanecem arrumados junto com alguns livros e mais coisas minhas na cantoneira da nossa casa, como testemunhas afectivas do meu tempo de escola.

São fragmentos da minha vida e das pessoas importantes que por ela passaram, valiosos pergaminhos da minha história. 


 

 

Funchal, 05 de Abril de 2025