DORES DE BARRIGA OU MAU-OLHADO
As rezas e as benzeduras faziam parte do dia-a-dia.
Quando alguém se sentia maldisposto, sem vontade de comer,
com dores de cabeça ou com a cabeça estonteada recorria à curandeira que tinha
rezas para todos os males: tanto podia ser uma camada de olhado, como um ar que
tinha passado ou então o sol na cabeça que havia provocado aquele mal. Até se
curava os animais que por vezes também eram alvo da inveja e do olho gordo de
algum vizinho.
Na nossa casa não era
hábito a mãe levar-nos a curar do olhado, embora de vez em quando contasse aquele episódio de uma camada de olhado que alguém me deu quando eu
ainda era criança de peito. Indo a mãe comigo ao colo a caminho das Fontes para
visitar a avó Silvéria, uma vizinha dali perto olhou para mim e disse-lhe que
tinha uma menina muito bonita, parecida com a avó Serafina. A mãe ficou
contente com o elogio e ao chegar a casa contou o sucedido à avó Serafina,
pensando que também ela haveria de ficar contente, mas tal não aconteceu. A avó
respondeu que não lhe agradava nada gabas como aquela, ainda mais vindas
daquela pessoa que ela conhecia muito bem. Olhado ou não, o certo é que no
outro dia a menina só vomitava e não queria comer nada. E desde esse dia ficou
decidido que quando a mãe precisasse de ir às Fontes a menina ficaria em casa
com a avó para que não voltasse a suceder o mesmo.
Depois de todos um pouco já mais crescidos, quando nas nossas
brincadeiras dávamos cabriolas em cima da cama ou virávamos o sino nas estacas
da vinha, de vez em quando vinham as dores de barriga e o bucho virado. Então
era mesmo a mãe que nos curava com uma massagem na barriga. Mandava-nos deitar
em cima da cama e esticar as pernas; depois, com um bocadinho de banha de porco
que tirava da púcara de barro lá nos ia massajando a barriga, as suas mãos
escorregando de um lado e de outro deixando-nos a pele lustrosa e brilhante;
dizia para ficarmos quietos e de boca fechada para ouvirmos a nossa barriga a
roncar e realmente era assim que acontecia. Não sei com quem a mãe aprendeu a
dar estas massagens, mas a verdade é que até alguns pequenos da vizinhança,
quando estavam com o bucho enfustado, vinham à nossa casa para a mãe lhes
passar a mão na barriga.
Eu não gostava nada destas massagens e o que me valia é que
muito raramente me dava dores de barriga. Quando isso acontecia lembrava-me da
Teresinha Batata, uma curandeira de lá de baixo das Feiteiras que costumava vir
a casa da prima. Alta e esguia, de pele morena e toda vestida de preto porque
com certeza seria viúva, só de olhar para aquela mulher eu já ficava cheia de
medo. As suas mãos escuras, magras e de dedos compridos provocavam-me uma angústia
só de imaginá-las a escorregar na minha barriga. Por isso, assim que eu a via
chegar a casa da prima, fugia para casa com medo que também me viesse curar, e
só voltava depois de ela se ter ido embora.
Para além desta muito remota lembrança, quando já era um
pouco maior, às vezes também ia acompanhar alguma vizinha a casa da mulher do Gibinha
que sabia curar de olhado. Em silêncio eu observava atentamente e ia ouvindo
toda aquela reza que ela dizia enquanto ia fazendo cruzes com um galhinho de
alecrim. Duas palavras me ficaram na lembrança - a postura e a formosura - que
alguém podia invejar, e o modo como ela arrematava a sua reza, ao qual eu achava muita graça: - Este mal,
deste corpo seja tirado, àquele mar seja deitado. O mar é poderoso, pode com o
bem e com o mal. Fora mal!
E porque se acreditava
que estas rezas faziam bem, ao fim dos dias certos para essas benzeduras,
aquele que se ia curar sentia-se logo melhor, porque o mal já lhe havia sido
tirado.
Mas era preciso acreditar!...
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