sábado, 17 de setembro de 2016

Rezas e benzeduras


DORES DE BARRIGA OU MAU-OLHADO

As rezas e as benzeduras faziam parte do dia-a-dia.

Quando alguém se sentia maldisposto, sem vontade de comer, com dores de cabeça ou com a cabeça estonteada recorria à curandeira que tinha rezas para todos os males: tanto podia ser uma camada de olhado, como um ar que tinha passado ou então o sol na cabeça que havia provocado aquele mal. Até se curava os animais que por vezes também eram alvo da inveja e do olho gordo de algum vizinho.

 Na nossa casa não era hábito a mãe levar-nos a curar do olhado, embora de vez em quando contasse aquele episódio de uma camada de olhado que alguém me deu quando eu ainda era criança de peito. Indo a mãe comigo ao colo a caminho das Fontes para visitar a avó Silvéria, uma vizinha dali perto olhou para mim e disse-lhe que tinha uma menina muito bonita, parecida com a avó Serafina. A mãe ficou contente com o elogio e ao chegar a casa contou o sucedido à avó Serafina, pensando que também ela haveria de ficar contente, mas tal não aconteceu. A avó respondeu que não lhe agradava nada gabas como aquela, ainda mais vindas daquela pessoa que ela conhecia muito bem. Olhado ou não, o certo é que no outro dia a menina só vomitava e não queria comer nada. E desde esse dia ficou decidido que quando a mãe precisasse de ir às Fontes a menina ficaria em casa com a avó para que não voltasse a suceder o mesmo.

Depois de todos um pouco já mais crescidos, quando nas nossas brincadeiras dávamos cabriolas em cima da cama ou virávamos o sino nas estacas da vinha, de vez em quando vinham as dores de barriga e o bucho virado. Então era mesmo a mãe que nos curava com uma massagem na barriga. Mandava-nos deitar em cima da cama e esticar as pernas; depois, com um bocadinho de banha de porco que tirava da púcara de barro lá nos ia massajando a barriga, as suas mãos escorregando de um lado e de outro deixando-nos a pele lustrosa e brilhante; dizia para ficarmos quietos e de boca fechada para ouvirmos a nossa barriga a roncar e realmente era assim que acontecia. Não sei com quem a mãe aprendeu a dar estas massagens, mas a verdade é que até alguns pequenos da vizinhança, quando estavam com o bucho enfustado, vinham à nossa casa para a mãe lhes passar a mão na barriga.

Eu não gostava nada destas massagens e o que me valia é que muito raramente me dava dores de barriga. Quando isso acontecia lembrava-me da Teresinha Batata, uma curandeira de lá de baixo das Feiteiras que costumava vir a casa da prima. Alta e esguia, de pele morena e toda vestida de preto porque com certeza seria viúva, só de olhar para aquela mulher eu já ficava cheia de medo. As suas mãos escuras, magras e de dedos compridos provocavam-me uma angústia só de imaginá-las a escorregar na minha barriga. Por isso, assim que eu a via chegar a casa da prima, fugia para casa com medo que também me viesse curar, e só voltava depois de ela se ter ido embora.

Para além desta muito remota lembrança, quando já era um pouco maior, às vezes também ia acompanhar alguma vizinha a casa da mulher do Gibinha que sabia curar de olhado. Em silêncio eu observava atentamente e ia ouvindo toda aquela reza que ela dizia enquanto ia fazendo cruzes com um galhinho de alecrim. Duas palavras me ficaram na lembrança - a postura e a formosura - que alguém podia invejar, e o modo como ela arrematava a sua reza, ao qual eu achava muita graça: - Este mal, deste corpo seja tirado, àquele mar seja deitado. O mar é poderoso, pode com o bem e com o mal. Fora mal!

 E porque se acreditava que estas rezas faziam bem, ao fim dos dias certos para essas benzeduras, aquele que se ia curar sentia-se logo melhor, porque o mal já lhe havia sido tirado.

Mas era preciso acreditar!...

 


 

Sem comentários:

Enviar um comentário