domingo, 5 de novembro de 2017

À sombra da latada...


UVAS BRANCAS E UVAS AMERICANAS
Como a maioria das casas madeirenses, a nossa casa também tinha a sua latada. Era uma boa latada de vinha que se estendia desde o terreiro da cozinha até ao corgo, lá mais adiante. Como todas as casas, tinha também um terreiro de pedra calçada e um assento onde se sentavam a bordar ou a conversar as vizinhas que diariamente e por qualquer motivo subiam os degraus do nosso portal para virem à nossa casa.

Nos primeiros anos da minha meninice, ainda em tempo da avó Serafina, havia no terreiro uma parreira de uvas brancas, e mesmo na beira da vinha uma outra parreira de uvas americanas que faziam sombra e exalavam o seu perfume por todo o lado, fazendo despertar os nossos sentidos mal se abria a porta de casa. Estas duas parreiras ocupavam um lugar de destaque na latada porque eram diferentes das outras destinadas para fazer o vinho, e eram o orgulho do pai que lhes devotava o mais profundo cuidado para que nos desse os mais belos cachos de uvas que se pudesse saborear. Mas depois a casa foi toda reconstruída, o terreiro foi cimentado para ser mais fácil de varrer (quando era de pedra calçada tínhamos que varrer com uma vassoura de urze), e lá se foi a parreira de uvas brancas.    

A latada de vinha dava cor e alegria à nossa casa, tal e qual um adereço no colo de uma jovem e comprometida rapariga. Na Primavera e no Verão, o verde da folhagem e dos cachos de uvas, aquele verde próprio dos frutos que ainda estão a crescer, fazia realçar o vermelho alaranjado do novo telhado e o ainda fresco amarelo-claro da chaminé e das paredes da casa que cheirava a nova. Quem olhasse do Lombo do Cantaria ou desde a curva da Achada do Beirão apenas conseguia ver, no meio de todo aquele verde, o telhado da casa e logo atrás a cumeeira do palheiro de restolho que desde sempre ali estivera. Quando chegava o Outono, e assim que se fazia a vindima, as folhas tingiam-se com vários tons de vermelho e quase se confundiam com a cor do telhado; depois tombavam nas voltas e reviravoltas do vento sul que acompanhava as primeiras chuvas mal o Inverno se fazia anunciar, deixando nuas as parreiras, tal como a casa que igualmente se mostrava assim meio despida sem aquele seu precioso adereço.

A vinha era como uma extensão da nossa casa, o nosso grande quintal. O chão de terra batida era o palco dos nossos jogos e brincadeiras; à sua sombra a mãe sentava-se nas longas tardes de Verão, quando lhe sobrava algum tempo para gastar uma linha no bordado; e quando o pai chegava mais cedo do Lombo ou das Fajãs também aproveitava para ali descansar um bocado, sentado no degrau do palheiro, aproveitando para um dedo de prosa com um ou outro vizinho.

Para nós seria impensável imaginar a nossa casa sem a latada de vinha, pois fazia parte dela e também da nossa vida.

 
Funchal, 04-11-2017  

 

 

 

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