CONTAR ESTRELAS
No meu tempo de criança, as noites claras e enluaradas do mês de Agosto despertavam
em mim o enorme desejo de olhar para o céu salpicado de estrelas, que por ser
Verão parecia que brilhavam ainda mais do que nos outros meses do ano.
Pensando naquela lição de que eu muito gostava - Luar de
Agosto - do livro da terceira classe que dizia ser este o luar mais bonito do
ano, eu olhava para o céu para confirmar se era mesmo verdade o que tinha lido
no texto. Enquanto pensava na lição do livro punha-me a olhar as estrelas, a
ver se conseguia apanhar alguma a correr de um lado para o outro, o que às
vezes acontecia. E silenciosamente também contava as estrelas, mas contava-as
mentalmente porque se o fizesse em voz alta podiam nascer-me verrugas nos dedos,
pois como costumavam dizer os mais velhos quem contasse estrelas nascia-lhe
verrugas e depois para tirá-las era um problema sério. Na inocência da minha
tenra idade eu acreditava que assim acontecia, mas na verdade nunca me nasceram
verrugas embora gostasse de contar as estrelas.
Este gosto que eu tinha de olhar para as estrelas tornou-se
ainda mais acentuado quando na aula de ciências naturais, no primeiro ano do
ciclo preparatório aprendi os nomes das constelações. Depois disso, sempre que
via o céu estrelado olhava para ele vezes sem fim, tentando descobrir a Ursa
Maior e a Ursa Menor que os mais antigos chamavam “As três Marias”.
Nos tempos de hoje, para saborear as noites de Verão, gosto
de me sentar silenciosamente na minha varanda, passeando o meu olhar pelo céu, a
observar as estrelas. Agora já não me importo contá-las mas ainda há poucos dias,
por duas vezes apanhei uma estrela a correr de um lado para o outro. Também já não
ando à procura da Ursa Maior ou da Ursa Menor, mas o meu olhar vai directamente
para aquela estrela maior e mais brilhante, rodeada de outras estrelas mais
pequenas. Junto com o meu olhar vai o meu pensamento de saudade para todos
aqueles que já fizeram parte da minha vida e agora transformados em estrelas
estão lá no firmamento. E sei que a maior e mais cintilante estrela é a minha
mãe que de lá de cima continua a cuidar de mim.
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