A CEIFA
Quando chegavam os últimos dias do mês de Julho o trigo já se
mostrava naquele tom amarelo dourado, querendo dizer que estava seco e pronto
para ser colhido. Aproximavam-se os dias da ceifa e já se sabia que durante
alguns dias o nosso caminho era o do Lombo.
Esta era uma tarefa que exigia alguma preparação para que
tudo estivesse pronto naqueles dias. Alguns dias antes a mãe levava o trigo ao
moinho para depois fazer uma amassadura de pão e arranjava as cobertas de
retalhos e as sacas de pano grosso para o dia da debulha. Enquanto isso o pai já ia
contratando homens, mulheres e raparigas para ajudarem na labuta.
O dia da ceifa começava bem cedo, com a mãe atarefada a fazer
uma panela de café e a arranjar pão de casa com manteiga ou com ovos fritos para
a matina daquela gente que tinha vindo dar o dia a trabalhar na apanha do trigo.
Tomavam o café e seguiam para o Lombo, não sem antes terem molhado a garganta (aqueles
que tivessem vontade!...) com o tal groguezinho de aguardente que a mãe sempre
gostava de oferecer; com este pequeno incentivo, a subida do Lombo do Cantaria
e a caminhada pela Levada do Encontro tornavam-se mais ligeiras e num instante
chegavam ao Lombo.
O calor da azáfama e a poeira misturavam-se com a alegria, as
cantigas e a boa disposição. Mulheres e raparigas, a cabeça coberta por um
lenço ou chapéu de palha, arrancavam as espigas com a mão direita e
colocavam-nas numa mão-cheia no seu lado esquerdo para depois os homens as
recolherem uma a uma e formarem as maçadoiras que amarravam com um pequeno
feixe de espigas. Depois iam-nas empinando de tal modo que pareciam engraçadas cabanas
onde os mais pequenos logo aproveitavam para brincar às escondidas. Era divertido
brincar à volta destas cabanas, correndo e sentindo nos pés descalços a terra
quente, leve e fofa de onde há pouco se tinham arrancado as espigas do trigo. De
vez em quando surgia no meio do trigo uma ninhada de murganhos que faziam as
mulheres darem saltos e gritinhos enquanto os homens desatavam às gargalhadas e
os pequenos corriam e se afastavam com receio de que eles lhes passassem por
cima dos pés.
O almoço, embrulhado na toalha branca de algodão era
transportado na tampa de vimes, porque como era para muita gente o cesto de asa
mais pequeno não dava para levar tudo. Era o nosso Pedro ou um dos rapazes mais
novos que andavam no trigo que vinham a casa buscar a tampa e muito cuidadosamente a levavam às
costas pela levada adentro até ao Lombo. E à sombra dos pinheiros ou em qualquer
outro espaço onde se pudessem abrigar do sol e do calor, todos se sentavam a
almoçar, acompanhando as semilhas americanas e o bacalhau com um copo do nosso
vinho que logo de manhã tinha sido levado no garrafão de cinco litros, aquele
garrafão de vidro verde-escuro forrado com palhinha trançada.
Depois de todo colhido, os homens com aquela enorme foice roçavam o trigo separando
as espigas do restolho que depois de amarrado em molhos seria arrumado no
sobrado do palheiro, para na devida altura ser usado na cobertura dos nossos
palheiros. As espigas eram arrumadas em montes para daí a uns dias serem
debulhadas. Às vezes o pai chegava a dormir no sobrado para cuidar do trigo
durante a noite, não fosse algum amigo do alheio atrever-se a lá ir roubar algum
trigo para aumentar a sua colheita.
Para nós os pequenos, estes eram dias bem passados. À
tardinha chegávamos a casa cheios de terra dos pés até à cabeça, mas vínhamos
muito descontraídos e felizes. Quando à noite depois da ceia nos sentávamos no
terreiro a refrescar do calor, havia sempre as histórias e artices do
dia para contar e as nossas alegres risadas que logo depois nos faziam cair na cama e dormir
num sono só até ao outro dia de manhã.

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