sábado, 6 de agosto de 2016

Tempo de apanhar o trigo


A CEIFA

Quando chegavam os últimos dias do mês de Julho o trigo já se mostrava naquele tom amarelo dourado, querendo dizer que estava seco e pronto para ser colhido. Aproximavam-se os dias da ceifa e já se sabia que durante alguns dias o nosso caminho era o do Lombo.

Esta era uma tarefa que exigia alguma preparação para que tudo estivesse pronto naqueles dias. Alguns dias antes a mãe levava o trigo ao moinho para depois fazer uma amassadura de pão e arranjava as cobertas de retalhos e as sacas de pano grosso para o dia da debulha. Enquanto isso o pai já ia contratando homens, mulheres e raparigas para ajudarem na labuta.

O dia da ceifa começava bem cedo, com a mãe atarefada a fazer uma panela de café e a arranjar pão de casa com manteiga ou com ovos fritos para a matina daquela gente que tinha vindo dar o dia a trabalhar na apanha do trigo. Tomavam o café e seguiam para o Lombo, não sem antes terem molhado a garganta (aqueles que tivessem vontade!...) com o tal groguezinho de aguardente que a mãe sempre gostava de oferecer; com este pequeno incentivo, a subida do Lombo do Cantaria e a caminhada pela Levada do Encontro tornavam-se mais ligeiras e num instante chegavam ao Lombo.

O calor da azáfama e a poeira misturavam-se com a alegria, as cantigas e a boa disposição. Mulheres e raparigas, a cabeça coberta por um lenço ou chapéu de palha, arrancavam as espigas com a mão direita e colocavam-nas numa mão-cheia no seu lado esquerdo para depois os homens as recolherem uma a uma e formarem as maçadoiras que amarravam com um pequeno feixe de espigas. Depois iam-nas empinando de tal modo que pareciam engraçadas cabanas onde os mais pequenos logo aproveitavam para brincar às escondidas. Era divertido brincar à volta destas cabanas, correndo e sentindo nos pés descalços a terra quente, leve e fofa de onde há pouco se tinham arrancado as espigas do trigo. De vez em quando surgia no meio do trigo uma ninhada de murganhos que faziam as mulheres darem saltos e gritinhos enquanto os homens desatavam às gargalhadas e os pequenos corriam e se afastavam com receio de que eles lhes passassem por cima dos pés.
 
A mãe ficava em casa a fazer o almoço, semilhas americanas descascadas e cozidas com bacalhau. E como eram gostosas aquelas semilhas!... A mãe juntava-lhes umas cebolas novas cortadas em quatro que para além de as tornarem mais saborosas, eram depois acrescentadas ao molho de azeite e vinagre do bacalhau deixando-o ainda mais apetitoso.

O almoço, embrulhado na toalha branca de algodão era transportado na tampa de vimes, porque como era para muita gente o cesto de asa mais pequeno não dava para levar tudo. Era o nosso Pedro ou um dos rapazes mais novos que andavam no trigo que vinham a casa buscar a tampa e muito cuidadosamente a levavam às costas pela levada adentro até ao Lombo. E à sombra dos pinheiros ou em qualquer outro espaço onde se pudessem abrigar do sol e do calor, todos se sentavam a almoçar, acompanhando as semilhas americanas e o bacalhau com um copo do nosso vinho que logo de manhã tinha sido levado no garrafão de cinco litros, aquele garrafão de vidro verde-escuro forrado com palhinha trançada.

Depois de todo colhido, os homens com aquela enorme foice roçavam o trigo separando as espigas do restolho que depois de amarrado em molhos seria arrumado no sobrado do palheiro, para na devida altura ser usado na cobertura dos nossos palheiros. As espigas eram arrumadas em montes para daí a uns dias serem debulhadas. Às vezes o pai chegava a dormir no sobrado para cuidar do trigo durante a noite, não fosse algum amigo do alheio atrever-se a lá ir roubar algum trigo para aumentar a sua colheita.

Para nós os pequenos, estes eram dias bem passados. À tardinha chegávamos a casa cheios de terra dos pés até à cabeça, mas vínhamos muito descontraídos e felizes. Quando à noite depois da ceia nos sentávamos no terreiro a refrescar do calor, havia sempre as histórias e artices do dia para contar e as nossas alegres risadas que logo depois nos faziam cair na cama e dormir num sono só até ao outro dia de manhã.

 

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