O MEDO DO VELHO
Não havia criança pequena que não tivesse medo do velho.
Por tudo e por nada que fizesse, logo lhe falavam do tal
velho que no entanto nunca aparecia. Se a mandavam pôr-se quieta e não sossegava,
se chorava sem parar porque lhe haviam ralhado, se não obedecia às ordens que
lhe davam os mais velhos, lá vinha a terrível ameaça: “_ Olha que vem um velho
e leva-te dentro da saca!...”
Assim acontecia com todos os pequenos, diariamente ouvíamos
esta ameaça, por isso desde tenra idade aprendemos a sentir o medo e a temer o
perigo, porque certamente não haveria coisa mais terrível para uma criança do
que ser levada para um lugar desconhecido, longe da mãe, do pai e dos irmãos.
Mas aquele velho que realmente só existia nas palavras dos
adultos como forma de ensinarem os mais pequenos a terem bons modos de conduta,
existia concretamente, em carne e osso, na minha infantil realidade. Na minha
inocência, o velho que me iria levar dentro da saca, para bem longe, era nem
mais nem menos o Manuel dos Ramos, um pobre que costumava passar pela nossa
casa a pedir esmola.
O Manuel dos Ramos vinha lá do cabo da Ribeira Grande, sempre
descalço, com uma saca ao ombro e um bordão para o ajudar a deslocar-se porque
as suas pernas meio torcidas, dificultavam-lhe o andar. Era mesmo pobrezinho mas
não era muito velho, pelo contrário, devia ser ainda novo, porque talvez ainda
não há duas décadas que terá falecido. Também não seria pessoa de fazer mal a
quem quer que fosse, muito menos a crianças pequenas, mas era a minha imagem do
tal velho e era ele o meu grande medo.
Quando via o Manuel dos Ramos a apontar ao Lombo do Cantaria e a descer pela Fontinha abaixo, já eu me escondia dentro de casa, com medo não me
levasse. Escondia-me dentro da cozinha, punha-me atrás da porta e observava-o
pela frincha do postigo. Via-o sentado no assento do nosso terreiro, de prato
na mão ou em cima de uma banca, a comer o que a mãe lhe havia arranjado para
que matasse a fome; a nossa casa era paragem obrigatória porque a mãe nunca o
deixava ir de barriga vazia.
Junto com o medo que me assolava naquele momento, eu sentia
uma enorme pena do Manuel dos Ramos, sobretudo pelos seus pés sempre descalços,
pelo seu modo triste de responder às perguntas que a mãe lhe fazia e pelas suas
pernas que ele nunca conseguia endireitar. Depois de satisfeito, via-o pegar na
saca e no bordão, descer os nossos degraus e ir-se embora seguindo o caminho
pela vizinhança abaixo. Sentia-me aliviada, mas aquela imagem não me saía do
pensamento.
Ainda hoje a figura do Manuel dos Ramos surge por vezes na
minha lembrança, quando penso nos meus medos de criança pequena ou na miséria e
pobreza em que viviam algumas pessoas do meu tempo. Com o passar dos anos e à
medida que fui crescendo, o medo do tal velho dos meus tempos de criança foi-se
desvanecendo, mas quando oiço falar em pobreza, muitas vezes lembro-me dele
porque aquela não era uma pobreza fingida, era mesmo verdadeira. A fingir só
mesmo o velho que eu imaginava que me poderia levar embora para sempre.
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