sábado, 12 de novembro de 2016

Personagens de antigamente


PERSONAGENS REAIS

Foram várias as personagens interessantes que povoaram o universo da nossa infância. Algumas delas conhecemos realmente porque ainda viveram no nosso tempo, outras conhecemos só de nome pelas muitas vezes que surgiam nas histórias que a mãe nos contava.

Umas vezes era o Molicos Carvalhal, vizinho quase do pé da porta, que surgia do antigamente para ilustrar qualquer assunto que se estivesse a falar; outras vezes era a Pestaninha que vinda lá dos lados do Porto Moniz chegava com a sua voz resmungona e mesmo sem pedir licença também entrava na história; e não poderia faltar o Santo Antoninho que costumava vir sempre à festa do Rosário e se metia com as raparigas dirigindo-lhes galanteios que nenhuma delas apreciava. Mas o Franco era, sem qualquer dúvida, a personagem que mais vezes entrava nas histórias da mãe.

O Franco vivia sozinho numa simples e modesta casinha de palha, nas Fontes, perto da casa da nossa avó Silvéria. Segundo contava a mãe, era fraco do juízo e dependia da ajuda da vizinhança para sobreviver. O porto de abrigo do Franco era a casa da avó que com a sua caridade e generosidade muitas vezes lhe matava a fome, embora toda a vizinhança o ajudasse no que fosse preciso. E porque tanto a mãe como a tia sempre falavam dele, foram várias as histórias do Franco que ficaram na nossa memória.

Contava a mãe que na véspera da visita do Espírito Santo, as raparigas juntavam-se e arrumavam-lhe a casa de modo a ficar apresentável para a Divina Visita. Uma vez arranjaram-lhe o colchão de palha de milho, mexendo a palha e deixando-o tão fofo que a cama até parecia outra. Quando viu a cama assim tão bem feita, o pobre do Franco não a quis desfazer e dormiu no chão para que a cama já ficasse pronta para o outro dia.

Um dia aconteceu pegar fogo na casa do Franco e o pobre não tinha onde se agasalhar. Com pena dele, a avó acolheu-o no sobrado do palheiro que tinha ao pé de casa, no lado da porta da loja e ele ali dormiu por uns tempos. Mas o Franco que tinha pouco juízo, fazia barulho pela noite fora quando todos queriam dormir. Numa dessas ocasiões a avó abriu a janela e mandou-o calar-se dizendo-lhe que o avô que já tinha uma certa idade, precisava de dormir porque tinha de acordar cedo. O Franco prontamente respondeu que não tinha nada a ver se o avô precisava de dormir, que não tinha culpa de o avô se levantar bem cedo para ir tocar o sino da igreja,  e só parou de fazer barulho quando bem entendeu.

Sempre que as histórias do Franco eram tema de conversa, era impossível não darmos umas boas gargalhadas ouvindo as suas peripécias. Ao lembrar-me delas, imagino a mãe e a tia que nos transmitiram as suas lembranças, lá na Outra Dimensão a se rirem com vontade por não as termos esquecido. E com certeza hão-de enviar-me mais inspiração para me lembrar de outras histórias que todas juntas constituem a história da nossa vida.

 
 

Sem comentários:

Enviar um comentário