PERSONAGENS REAIS
Foram várias as personagens interessantes que povoaram o
universo da nossa infância. Algumas delas conhecemos realmente porque ainda
viveram no nosso tempo, outras conhecemos só de nome pelas muitas vezes que
surgiam nas histórias que a mãe nos contava.
Umas vezes era o Molicos Carvalhal, vizinho quase do pé da
porta, que surgia do antigamente para ilustrar qualquer assunto que se
estivesse a falar; outras vezes era a Pestaninha que vinda lá dos lados do
Porto Moniz chegava com a sua voz resmungona e mesmo sem pedir licença também entrava
na história; e não poderia faltar o Santo Antoninho que costumava vir sempre à
festa do Rosário e se metia com as raparigas dirigindo-lhes galanteios que
nenhuma delas apreciava. Mas o Franco era, sem qualquer dúvida, a personagem
que mais vezes entrava nas histórias da mãe.
O Franco vivia sozinho numa simples e modesta casinha de
palha, nas Fontes, perto da casa da nossa avó Silvéria. Segundo contava a mãe,
era fraco do juízo e dependia da ajuda da vizinhança para sobreviver. O porto
de abrigo do Franco era a casa da avó que com a sua caridade e generosidade
muitas vezes lhe matava a fome, embora toda a vizinhança o ajudasse no que
fosse preciso. E porque tanto a mãe como a tia sempre falavam dele, foram várias
as histórias do Franco que ficaram na nossa memória.
Contava a mãe que na véspera da visita do Espírito Santo, as
raparigas juntavam-se e arrumavam-lhe a casa de modo a ficar apresentável para a
Divina Visita. Uma vez arranjaram-lhe o colchão de palha de milho, mexendo a
palha e deixando-o tão fofo que a cama até parecia outra. Quando viu a cama
assim tão bem feita, o pobre do Franco não a quis desfazer e dormiu no chão
para que a cama já ficasse pronta para o outro dia.
Um dia aconteceu pegar fogo na casa do Franco e o pobre não
tinha onde se agasalhar. Com pena dele, a avó acolheu-o no sobrado do palheiro que tinha
ao pé de casa, no lado da porta da loja e ele ali dormiu por uns tempos. Mas o
Franco que tinha pouco juízo, fazia barulho pela noite fora quando todos
queriam dormir. Numa dessas ocasiões a avó abriu a janela e mandou-o calar-se
dizendo-lhe que o avô que já tinha uma certa idade, precisava de dormir porque
tinha de acordar cedo. O Franco prontamente respondeu que não tinha nada a ver
se o avô precisava de dormir, que não tinha culpa de o avô se levantar bem cedo
para ir tocar o sino da igreja, e só
parou de fazer barulho quando bem entendeu.
Sempre que as histórias do Franco eram tema de conversa, era impossível
não darmos umas boas gargalhadas ouvindo as suas peripécias. Ao lembrar-me
delas, imagino a mãe e a tia que nos transmitiram as suas lembranças, lá na
Outra Dimensão a se rirem com vontade por não as termos esquecido. E com certeza
hão-de enviar-me mais inspiração para me lembrar de outras histórias que todas
juntas constituem a história da nossa vida.
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