NO TEMPO DAS CASTANHAS
Era por esta altura, mais ou menos pelo São Martinho, que os
ouriços começavam a abrir e deixavam cair as primeiras castanhas. Às vezes,
quando menos esperávamos, o pai chegava a casa, metia a mão na algibeira e
tirava uma meia dúzia de castanhas que tinha encontrado debaixo do castanheiro
nas Fajãs. Os nossos olhos brilhavam porque já tínhamos saudades delas; então,
descascávamo-las e rapávamo-las mesmo com os dentes, trincando-as assim mesmo
cruas. E que bem nos sabiam estas primeiras castanhas!...
Nas nossas Fajãs tínhamos vários castanheiros. Alguns nasciam
espontaneamente, ainda eram pequenos e só davam um ouriço aqui outro ali, mas
havia uns maiores que se destacavam pelo seu porte e davam mesmo castanhas com
alguma abundância.
Quase ao chegar ao palheiro de cima, tínhamos um imponente
castanheiro, de tronco alto e muito direito que dava as maiores castanhas, mas
viveu poucos anos, acabou por secar e o seu destino foi tornar-se em madeira;
um pouco acima do palheiro de baixo tínhamos outro castanheiro grande que
também costumava dar muitas castanhas e já há muito tempo deixou de existir.
Mas o maior de todos era o nosso castanheiro grande que tem resistido aos anos e
continua a dar castanhas, miúdas mas muito saborosas.
Segundo nos contava o pai, este castanheiro terá sido
plantado pelo avô Manuel António e embora o pai fosse ainda bem pequeno
lembrava-se perfeitamente de ver o avô plantá-lo. E o castanheiro grande ainda
lá está imponente e majestoso, quase um centenário atravessando gerações, sempre
rei e senhor das nossas Fajãs.
No tempo das castanhas, todos os dias de manhã íamos às Fajãs
buscar as castanhas que tivessem caído durante a noite. E então se tivesse havido
algum vento a colheita era bem mais recheada.
Todos os dias comíamos castanhas. Às vezes a mãe cozia-as
para o almoço, para comermos junto com as semilhas; à noite havia magusto
diariamente. Depois da ceia, arranjávamos as castanhas, o pai assava-as no lar
e nós ficávamos ali à espera, sentados à volta da mesa. Depois de assadas
começávamos a descascá-las e íamos escolhendo as melhores para o pai e para a
mãe.
Enquanto descascávamos e nos deliciávamos com as castanhas
assadas íamos ouvindo histórias, provérbios e ditados que o pai e a mãe
costumavam contar. Muito nos divertíamos, rindo sempre com vontade quando a mãe,
entre outras artices, dizia: “-Quem come castanhas com carepa, à noite toca
rebeca!”. E nós, com muito cuidado lá íamos tirando toda a carepa às castanhas,
porque era certo e sabido que durante a noite haveria não uma rebeca, mas uma verdadeira
orquestra de rebecas.

Era uma alegria!...
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