quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Castanhas e castanheiros


NO TEMPO DAS CASTANHAS

Era por esta altura, mais ou menos pelo São Martinho, que os ouriços começavam a abrir e deixavam cair as primeiras castanhas. Às vezes, quando menos esperávamos, o pai chegava a casa, metia a mão na algibeira e tirava uma meia dúzia de castanhas que tinha encontrado debaixo do castanheiro nas Fajãs. Os nossos olhos brilhavam porque já tínhamos saudades delas; então, descascávamo-las e rapávamo-las mesmo com os dentes, trincando-as assim mesmo cruas. E que bem nos sabiam estas primeiras castanhas!...

Nas nossas Fajãs tínhamos vários castanheiros. Alguns nasciam espontaneamente, ainda eram pequenos e só davam um ouriço aqui outro ali, mas havia uns maiores que se destacavam pelo seu porte e davam mesmo castanhas com alguma abundância.

Quase ao chegar ao palheiro de cima, tínhamos um imponente castanheiro, de tronco alto e muito direito que dava as maiores castanhas, mas viveu poucos anos, acabou por secar e o seu destino foi tornar-se em madeira; um pouco acima do palheiro de baixo tínhamos outro castanheiro grande que também costumava dar muitas castanhas e já há muito tempo deixou de existir. Mas o maior de todos era o nosso castanheiro grande que tem resistido aos anos e continua a dar castanhas, miúdas mas muito saborosas.

Segundo nos contava o pai, este castanheiro terá sido plantado pelo avô Manuel António e embora o pai fosse ainda bem pequeno lembrava-se perfeitamente de ver o avô plantá-lo. E o castanheiro grande ainda lá está imponente e majestoso, quase um centenário atravessando gerações, sempre rei e senhor das nossas Fajãs.

No tempo das castanhas, todos os dias de manhã íamos às Fajãs buscar as castanhas que tivessem caído durante a noite. E então se tivesse havido algum vento a colheita era bem mais recheada.

Todos os dias comíamos castanhas. Às vezes a mãe cozia-as para o almoço, para comermos junto com as semilhas; à noite havia magusto diariamente. Depois da ceia, arranjávamos as castanhas, o pai assava-as no lar e nós ficávamos ali à espera, sentados à volta da mesa. Depois de assadas começávamos a descascá-las e íamos escolhendo as melhores para o pai e para a mãe.

Enquanto descascávamos e nos deliciávamos com as castanhas assadas íamos ouvindo histórias, provérbios e ditados que o pai e a mãe costumavam contar. Muito nos divertíamos, rindo sempre com vontade quando a mãe, entre outras artices, dizia: “-Quem come castanhas com carepa, à noite toca rebeca!”. E nós, com muito cuidado lá íamos tirando toda a carepa às castanhas, porque era certo e sabido que durante a noite haveria não uma rebeca, mas uma verdadeira orquestra de rebecas.

Nem todos os anos eram anos de castanhas, mas quando as havia em abundância davam para nós, e a mãe ainda contemplava a vizinhança. Às vezes eram tantas que o pai fazia um caniço, um tabuleiro feito com canavieira da mais delgadinha, onde se colocava as castanhas a secar no fumeiro da cozinha. Quando estavam aveladas a carepa saía com mais facilidade e eram boas para comer mesmo cruas. Depois de secas tínhamos castanhas para trincar durante muito tempo, sempre à espera que voltasse o Outono e vestisse outra vez os nossos castanheiros de novos ouriços com castanhas.

Era uma alegria!...

 

 

  

 

 
 

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