sexta-feira, 6 de março de 2026

Comungar pela primeira vez...

 

A PRIMEIRA COMUNHÃO

Quando entrei na escola primária para a primeira classe também comecei a ir à catequese, “à reza”, como então se dizia. A minha primeira catequista foi a Maria Teresa, filha da Maria do Cevada, que vivia na Rochinha. Como era hábito nesse tempo, a catequista ensinava a catequese na sua casa, então foi lá, no terreiro da casa dela que aprendi a reza para a Primeira Comunhão.

Eu já sabia muitas coisas da catequese porque a mãe, que antes de se casar também era catequista, já me tinha ensinado; sabia me benzer e rezar o Pai Nosso, a Avé-Maria e a Santa-Maria, o Anjo-da guarda…; também já estava habituada a ir à igreja porque desde pequena a avó Serafina levava-me sempre com ela quando ia à missa. Portanto, começar a ir à reza não foi uma tão grande novidade, fazia parte do percurso de crescimento, e a mãe valorizava muito a nossa educação cristã.

E assim chegou a altura da minha Primeira Comunhão.

O meu vestido branco era curto, pelo joelho e veio da América junto com outras coisas que a tia Joana (irmã da avó Silvéria) de vez em quando mandava para a mãe. O vestido tinha manga curta, de balão; então Teresinha do Mário que era uma costureira habilidosa fez umas mangas compridas que prendiam com elástico debaixo da manga curta e assim já tinha os braços tapados… (não podia ir de braços “à vela” receber a hóstia sagrada!!...). Parece que ainda estou a ver-me à volta da mãe e de Teresinha enquanto destinavam a minha indumentária da Primeira Comunhão, eu de olhos bem abertos e curiosa para saber como ficaria o meu vestido depois dos arranjos feitos.

A mãe comprou-me uns sapatos brancos, uns sapatos de boneca que abotoavam ao lado com um botão em forma de pérola, e também umas meias brancas que me chegavam quase até ao joelho. Também me comprou um véu branco, de tule, com florinhas e lacinhos bordados em toda a volta, semelhante ao que as raparigas maiores usavam para ir à missa.

No dia da Primeira Comunhão, a mãe não foi comigo à igreja porque não tinha com quem deixar os meus irmãos mais pequenos, a Clara tinha pouco mais de um ano e o João Carlos já estava para nascer. Quem me acompanhou foi a Balbina, comadre e amiga da mãe, nossa vizinha do pé da porta. E lá fui eu cheia de alegria, viver aquele momento tão importante da minha vida, a minha Primeira Comunhão, o dia em que comunguei pela primeira vez. Um momento feliz que me ficou para sempre na lembrança!... 


 

Funchal, 06-03-2026.

 

 


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Virgem do Parto, ó Maria...


 A MISSA DO PARTO
 

A mãe sempre foi madrugadora, tanto de Verão como de Inverno, por isso era com naturalidade que se levantava cedo para ir à Missa do Parto. E não perdia nenhuma!

Deixava-nos a dormir e lá ia ela com as vizinhas para a igreja, alegrar a voz e a alma com aqueles cânticos que sabia de cor e dos quais tanto gostava.

Depois, quando a missa acabava, subiam em magote o caminho da Vargem e entravam em casa de uma delas para aquecerem a garganta com um licorzinho ou o tal groguezinho de aguardente.

Tantas vezes acordei com as vozes da mãe e das vizinhas na nossa cozinha quando voltavam da Missa do Parto: a Mariazinha do Ferreirinha, a Mariazinha Figueira, às vezes a Sousa… Eu não as via, mas sabia que saíam da nossa cozinha com as faces rosadas do café quente mais o tal groguezinho de aguardente de caldeira, às vezes misturada com mel de abelhas, que nunca faltava no armário da nossa cozinha.

Mais tarde, depois de todos nós já andarmos na nossa vida, a mãe contava-me como tinha sido a Missa do Parto:

- Hoje, quando saí da missa, passei pela casa de minha prima Conceição (a do tio Francisco); comi uma fatia de bolo e tomei um grogue de whisky, soube-me bem!... Estava uma frieza!!!...

Numa outra ocasião…

- Quando vinha da Missa do Parto, a Conceição do Manuel Joaquim convidou-me para ir a casa dela; a Conceição é sempre uma pessoa amorável e amiga de falar comigo!...

Ao contrário da mãe, a sua irmã Maria Segunda, nossa tia, não costumava ir à Missa do Parto, embora fosse católica de alma e coração. De acordo com a mãe, a tia desde sempre gostou de dormir de manhã, e assim continuava mesmo sendo já de idade. Por isso, mesmo vivendo perto da igreja não se levantava cedo para ir à missa.

Também como dizia a mãe, nesse sentido eu saí à tia por gostar de dormir de manhã. E é mesmo verdade, por isso não me levanto cedo para ir à missa. Mas sei cantar todos os cânticos: cantava-os na missa do dia de domingo, que o Sr. Padre Teixeira celebrava sempre como Missa do Parto.


E são lembranças boas como esta que me acompanham por estes dias!...

 
              Virgem do Parto, ó Maria

Senhora da Conceição

Dai-nos as Festas Felizes

A Paz e a Salvação!...   


Funchal, 17 de Dezembro, de 2025 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 4 de maio de 2025

Minha mãe!...

 

A MÃE 

Alegre, risonha e de sorriso fácil, a mãe tinha alma de artista.

Tinha uma voz de rouxinol e cantava lindamente cantigas que sabia desde o seu tempo de pequena.

Contava-nos histórias ou acontecimentos sempre com sentido de humor e imitava com perfeição a maneira de falar das pessoas o que nos fazia rir às gargalhadas.

Tudo o que fazia era com perfeição. Bordava como se estivesse a pintar o caseado, as bastidas, o ponto-francês, o ponto-sombra ou os garanitos. Fazia crochet como se fosse renda e embelezava a beira das toalhas da cozinha.

Deitava remendos nas calças do pai (o pai rompia sempre as calças nos joelhos porque apanhava erva com um joelho apoiado no chão), cosidos a ponto-francês de um lado e de outro que ficavam tão bonitos como se tivesse sido à máquina.

Sabia cuidar do forno e amassar o pão, tendia as rosquilhas e os maios com esmero e fazia os bolos-de-noiva tão macios e redondinhos, como mais ninguém os fazia.

Cozia o arroz branco temperado com um pau de canela, nunca media a água e acertava sempre: o arroz da mãe nunca se esquece!

Ensinava-nos a ler, ditava o ditado e perguntava as tabuadas e ensinava-nos a fazer contas de cabeça.

Contava-nos as parábolas e passagens da Bíblia como se fosse uma história e tinha sempre um provérbio adequado quando nos queria dar uma lição sobre qualquer assunto.

Ensinou-nos a nos benzer, a rezar o terço, a Salvé-Rainha e demais orações.

Dizia-nos sempre: – Quem anda com Deus, Deus ajuda!... É a Fé que nos salva!

A nossa Mãe!...


sábado, 5 de abril de 2025

Pergaminhos afectivos


 

UMA IDA À CIDADE

No Verão de 1975, quando fiz catorze anos, fui à cidade com a tia.

Fomos no carocha da tia, penso que numa das poucas vezes que ela levou o seu carro ao Funchal, porque mais tarde já ia sempre de camioneta.

Ficámos em casa da D. Maria José, uma enfermeira muito amiga da tia, que um tempo depois veio a ser a minha madrinha do Crisma.

Eu estava a crescer e precisava de sapatos porque os que tinha já me estavam apertados, o meu dedo grande do pé já andava encolhido, e além disso, também queria andar à moda como as outras raparigas do colégio. Portanto, a primeira coisa a fazer foi comprar os meus sapatos.

A tia levou-me à Sapataria Inglesa, na Rua da Carreira, e ali escolhi uns sapatos a meu gosto, porque até essa idade sempre tinha usado os escolhidos pela mãe, que os comprava quando ia à cidade e antes de ir me tirava a medida do pé com um lápis, numa folha de papel da venda. Senti-me já uma rapariga grande, até mais alta do que era, com os meus sapatos novos de tacão alto escolhidos por mim.

Resolvida a compra dos sapatos, fomos logo de seguida à Papelaria do Colégio onde a tia me comprou diversos materiais escolares para o meu 4º Ano do Liceu que no mês de Outubro seguinte se iria iniciar: uma capa de pele, que escolhi vermelha e com bandeirinhas de diferentes países, para eu levar os livros no braço à semelhança das raparigas dos anos mais avançados do colégio; um rolo de papel em tons de vermelho-escuro para forrar os livros, e alguns cadernos (daqueles que traziam as fábulas na contracapa); um bom compasso de marca Kern (numa caixinha vermelha completa com todos os acessórios), tinta-da-china, guaches e pincéis, tudo o que era preciso para as aulas de Desenho.

É bem possível que a tia me tenha comprado mais qualquer coisa ou mesmo alguma peça de roupa, mas o que realmente para mim teve um grande valor foram os meus sapatos de tacão alto e os materiais escolares que a tia me comprou. A capa de pele e o compasso resistiram ao tempo e permanecem arrumados junto com alguns livros e mais coisas minhas na cantoneira da nossa casa, como testemunhas afectivas do meu tempo de escola.

São fragmentos da minha vida e das pessoas importantes que por ela passaram, valiosos pergaminhos da minha história. 


 

 

Funchal, 05 de Abril de 2025

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Viva o Chão dos Louros!...

 

Do Chão dos Louros à Encumeada

De vez em quando gosto de ir ao bar da Encumeada tomar um café ou uma cerveja fresca, principalmente no Verão. Gosto de me sentir abraçada pelo verde enquanto vou subindo por aqueles lugares cujos nomes conheço tão bem como a palma da minha mão.

Também gosto de ir até ao Calhau ou à Fajã da Areia onde posso olhar o azul e a imensidão do mar enquanto vou ouvindo o marulhar das ondas e me deixo inebriar com o inigualável cheiro a maresia, mas subir até à Encumeada desperta-me sempre uma sensação diferente.

O mar esteve desde sempre mais longe de mim, sempre o olhei com receio e muito respeito. As árvores estavam ali mesmo, tão perto de casa e dos lugares por onde eu habitualmente me movimentava, como os pinheiros do Lombo das Faias ou da Achada do Beirão, aonde eu ia com os meus irmãos e outros pequenos buscar saruga, pinhas e gravetos secos para acender o lume.

O Lombo do Atalho, os Cabeceiros e as Lajas, as nossas Fajãs ou os Brimbeteiros são nomes que entraram no meu vocabulário desde que aprendi a falar, lugares que me habituei a ver como fazendo parte de nós e da nossa vida.

Nos dias de hoje, quando começo a subir as Covas e passo pelas Caldeirinhas, as curvas da estrada abrem-se para me deixar passar e saúdam-me sorridentes e felizes porque não me esqueci delas. Nas bermas, os imponentes castanheiros que mesmo de olhos fechados eu sei onde estão, e os loureiros viçosos de ramos abertos sobre a estrada, parecem querer abraçar-me e convidam-me a desfrutar do cheiro a floresta que tão bem conheço. Até um velho pereiro, completamente cheio de barbas e com os ramos retorcidos a pender sobre uma brenha de silvado, me faz um aceno de cabeça como que a dizer “Ainda estou aqui e sei que te lembras de mim!…”.

E há um pinheiro que já não existe, deverá ter morrido com a doença que há alguns anos assolou os pinheiros, mas continua no mesmo lugar onde existiu, a abraçar as minhas lembranças. Um pinheiro altíssimo com o tronco muito grosso, onde havia sido pintada uma larga faixa branca a fazer a vez de marco, sinalizando a beira da estrada. Quando nos dias pequenos eu ia do Funchal para São Vicente e a camioneta chegava já de noite, era aquele pinheiro que me alegrava o coração, indicando-me que já estava a chegar a casa.     

A estrada continua a abrir-se para me deixar passar e não me deixa esquecer que a Cova do Lanço é ali mesmo no lado esquerdo; num abrir e fechar de olhos sou abraçada por aquela curva familiar que imediatamente se transforma na comprida Ponte Ladeira que antecede o magnífico Chão dos Louros: o Chão dos Louros das cantigas da minha infância, dos passeios do colégio e dos romeiros na segunda-feira do setembro.

No fio da memória ecoa a minha voz de criança a cantar “Viva o Chão dos Louros, viva a Encumeada…” e vejo-me de mão dada com Agostinho, ainda mais criança do que eu, a cantar debaixo da vinha da nossa casa.

Agora estamos os dois a chegar à Encumeada, e lá nos sentamos a tomar uma cervejinha acompanhada com o desfiar de algumas das nossas muitas lembranças que uma após outra nos fazem sorrir de saudade.

 

Funchal, 21 de Julho de 2024        

domingo, 31 de dezembro de 2023

Viva o Ano Novo!...

 

VIVA O ANO NOVO

O Ano Novo ou o Dia de Jesus como então se dizia, era festejado em casa como qualquer dia de festa.

Na véspera fazia-se uma amassadura de pão fresco porque o da Festa já se tinha acabado; na caixa do pão ainda havia bolos de noiva, e também ainda havia broas e bolo preto.  

Era dia santo de guarda, sendo por isso obrigatório irmos à missa. Depois vinha o almoço, com todos sentados à volta da mesa da cozinha: havia um galo fresco arranjado para este dia e carne de vinha d´alhos que se comia com o pão de rosquilha fresco amassado na véspera.

Alguns vizinhos vinham de camioneta ao Funchal para verem o fogo-de-artifício, mas nós ficávamos em casa. Como poderia a mãe sair de casa para o Funchal com tantos pequenos, para só regressar de madrugada?!... Era trabalho que não valia a pena!... Mas ninguém se aborrecia com isso!... Deitávamo-nos cedo como habitualmente, sabendo que no outro dia já seria um novo ano.

O silêncio da noite era quebrado aqui e ali pelos estalos das bombas que os rapazes iam atirando e rebentando no largo da ponte e à meia-noite também se ouvia fogo-de-estalo, mas a essa hora nós já estávamos no melhor do nosso sono, por isso não nos dávamos conta do barulho das bombas e dos foguetes.

No outro dia quando acordávamos, a mãe contava-nos como tinha sido a passagem do ano: acordava com os estalos dos foguetes, levantava-se, abria a janela da sala e bebia um grogue de aguardente (da boa, feita da borra do vinho e que sempre havia em casa!...) à saúde do Ano Novo. Depois voltava a deitar-se e acordava já de manhã para nos fazer a matina.

Que maravilha de passagem de ano!... Não víamos o fogo-de-vista mas estávamos no calor da nossa casa, com o pai e a mãe à nossa volta, aquecendo e embalando os nossos sonhos para o Novo Ano que chegava!...

Meio século passado, continuamos a sonhar, outros sonhos que não os de criança, mas o pai e a mãe continuam espiritualmente ao nosso lado, a dar-nos força e a elevar-nos até ao melhor daquilo que sonharam para nós. Como se ainda estivéssemos juntos, numa passagem de ano qualquer, do tempo em que éramos crianças!  

 

Funchal, 31 de Dezembro de 2023  

 

 

 

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Não cortes o teu cabelo!...

CABELO À JOÃOZINHO

Nesse tempo dos anos sessenta, a moda do cabelo era o corte à Joãozinho, o cabelo bem curto com as orelhas à mostra, mas na nossa casa cabelo curto era só para os rapazes e não para as raparigas.

O pai dizia que as pequenas de cabelo curto pareciam cabeças de toutinegra e se calhar a mãe também não gostava de nos ver com o cabelo muito curto, ela que desde pequena sempre teve um cabelão comprido e o usava com duas tranças enroladas, presas com agulhetas e pentes, num bonito penteado na parte de trás da cabeça.  

Eu também queria o meu cabelo cortado à moda, como outras pequenas, mas a mãe não ia atrás de modas, cortava-me o cabelo sempre de beirinha e deixava-o ligeiramente comprido, um pouco acima dos ombros e a tapar as orelhas.

Às vezes a mãe queria me fazer duas tranças, mas eu não deixava porque mais nenhuma pequena andava de tranças e eu tinha vergonha de me ver diferente das outras.

Depois de mais crescida, até para cortar as pontas eu tinha um tormento porque o pai não deixava que eu cortasse o cabelo. Quando andava no colégio já o tinha comprido, um pouco abaixo dos ombros, mas não deixava que crescesse muito, de vez em quando cortava um bocadinho, mas nada que desse muito nas vistas, para que o pai não percebesse.

Assim que aos dezasseis anos vim estudar para o Liceu também comecei a tornar-me dona do meu cabelo. Nessa altura as raparigas usavam uns cortes engraçados e eu também queria um corte assim moderno. Então lá fui cortando um bocadinho de cada vez, primeiro a franja, depois no comprimento até me ficar bem por cima dos ombros.


Um dia, enchi-me de coragem, fui ao cabeleireiro e cortei-o mesmo curto. Foi o meu primeiro grito de independência!

Cheguei a casa pensando que iria haver um sermão, mas o pai olhou e não me disse nada. 

Essa foi a única vez que o cortei mais curto; a partir daí deixei-o crescer mais um pouco e passei a usá-lo ligeiramente mais comprido. 

Tornei-me finalmente senhora do meu cabelo!...

 

Funchal, 08 de Setembro de 2023

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Dia de aniversário

 

RETRATO A PRETO E BRANCO

Reza a história que a menina nasceu numa tarde de muito sol. A parteira que a ajudou a nascer foi a Silvina, mulher do Viveiros e vizinha quase do pé da porta.

O pai estava ausente no Curaçao mas já tinha destinado que ia nascer uma Serafina, então quem lhe fez as honras da casa foi a avó paterna. E foi uma avó Serafina orgulhosa (toda arregaçada nas palavras da mãe!!...) que pegou ao colo a menina acabada de nascer e a trouxe à rua para mostrá-la à vizinhança.

Ouvi esta história vezes sem conta e de cada vez que a ouvia imaginava como se estivesse a ver um retrato, a avó comigo ao colo e as vizinhas à sua volta desejosas por me verem pela primeira vez. E tinha a certeza que lá estavam a prima e as raparigas Maria, Teresinha e Noémi, a Teresinha do Mestre José, a Teresinha Pita e provavelmente mais alguém.


Esta menina que já trazia ao nascer o nome de Serafina, nome escolhido pelo pai, recebeu também o mesmo nome do pai (Ângelo) e da sua madrinha de baptismo e assim ficou com o nome próprio de Ângela Serafina.

terça-feira, 15 de agosto de 2023

A alegria de ir para a Venezuela

 

NO DIA DO MONTE

No Dia do Monte, do ano de mil novecentos e sessenta e sete, véspera do meu sexto aniversário, a prima embarcou para a Venezuela. Teresinha trouxe-me com ela à cidade para despedir a prima e Noemi no cais e viemos todos no carro de praça do Mário, marido de Teresinha.

Da despedida não me lembro absolutamente nada, mas lembro-me bem de que fomos à Festa do Monte. Deverá ter sido esta a minha primeira vinda à cidade, um momento tão importante na minha vida que nunca mais o esqueci; e como já estava prevista a ida ao arraial, o pai deu-me uma moeda de cinco escudos para eu comprar alguma coisa, mas não os gastei e quando regressámos a casa já à noite, ainda os tinha na algibeira.

Quando a prima andava nos preparativos para embarcar eu andava sempre à roda dela, a apreciar tudo e mais alguma coisa, entusiasmada como se também eu fosse com ela para a Venezuela, mas com certeza ainda não teria bem a noção de que só voltaria a vê-la já depois de adulta e professora formada.

Nestas andanças a prima ia várias vezes à cidade, tratar das coisas importantes para o embarque, ia no horário da manhã e regressava no horário da tarde.  Eu passava o dia esperando que chegasse a tarde para ir esperar a prima à Achada de Beirão pensando sempre que ela haveria de me trazer qualquer coisa da cidade.

Num desses dias em que fui esperá-la, vínhamos a descer pelo Caminho do Cantaria, ali perto das figueiras do Ferreirinha, quando Ângela deixou sair um estridente fofózinho e a prima logo a repreendeu, dizendo que aquilo não se fazia e era falta de respeito. Mas Ângela, que desde que aprendeu a falar sempre teve a resposta à ponta da língua, encontrou logo a resposta para a situação e respondeu:

_ Oh, prima! Isto é com a alegria de ir para a Venezuela!

E a prima que sempre se ria com as minhas tontices, achou ainda mais graça a esta e teve que contar a todos, à mãe, ao pai, à avó Serafina e à madrinha a minha resposta com a alegria de ir para a Venezuela.

E a engraçada resposta ficou para sempre, como mais uma história da Serafina.

 

Funchal, 15 de Agosto de 2023


sábado, 22 de julho de 2023

Semilhas e pimpinelas, abóboras e feijão novo

 

HISTÓRIAS COM FEIJÃO

O almoço é à moda de São Vicente: semilhas rachadas com casca, abóbora tenra, pimpinelas e feijão novo já descascado.

Enquanto vou degustando esta deliciosa iguaria que me leva aos almoços de Verão na nossa casa, deixo que se abra um dos muitos escaninhos da minha memória e vejo-me com os meus irmãos à volta da mesa da cozinha, segurando as pontas da toalha enquanto a mãe vira a panela do almoço em cima da travessa e as maçarocas, o feijão, as pimpinelas e todo o resto se espalham ainda a fumegar por cima da toalha da mesa.

Era uma panela grande bem cheia, dava para o almoço e ainda sobrava em quantidade, pelo que depois de todos termos almoçado, a travessa continuava em cima da mesa, tapada com a toalha (era só virar as pontas…) e mais tarde voltávamos lá e comíamos mesmo já frio ou fritando as semilhas, junto com café de mistura (café e cevada) que desde a matina havia na cafeteira.

Como sempre a mãe tinha as suas histórias para nos contar e uma delas tinha o feijão como ingrediente principal.


Esta história não foi inventada, foi um caso que se passou com a prima numa das suas vindas à cidade. Eu sempre lhe achei muita graça e hoje, a propósito de estar a comer feijão novo em seco, lembrei-me dela.

A prima entrou numa loja, ali na Rua dos Tanoeiros, para comprar qualquer coisa. Na mesma loja encontrava-se uma madame da cidade que ao aperceber-se do sotaque diferente perguntou à prima de onde era.

_ A senhora de onde é?...

- Sou de São Vicente!...- respondeu a prima.

_ Ah! Logo vi!... Por isso tem o nariz abolajado de comer feijão às “grafadas”!

A prima engoliu em seco, mas não gostou nada das palavras da madame. Então também lhe perguntou:

_ E a senhora de onde é?...

_ Eu cá sou de Sante Antónie!... respondeu ela toda lampeira do alto da importância que julgava ter por ser da cidade.

_ Ah!... respondeu a prima toda séria. - É por isso que tem a língua arregoada de rapar a colher do milho!...

Ao ouvir o que não estava à espera, a outra meteu a viola no saco e foi embora.

E eu, tal como quando era pequena e ouvia esta história, continuo a imaginar a cena e a ver a cara da prima toda séria, a dar à mulher a resposta que ela merecia ouvir.

As histórias que a Serafina se lembra!!...

 

 

Funchal, 22 de Julho de 2023

 

 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

A MANIA DO SETE

SEPTOMANIA

Tenho esperança de que este ano 2023 seja um bom ano.

Somando os algarismos (2+2+3) obtemos o número 7.

Não sei porquê mas sempre gostei do número 7. Talvez porque somando os algarismos do meu dia de nascimento (16) e do ano em que nasci (61) também obtenho o número 7. Além disso 7 é um número primo e uma coisa que eu gostava em Matemática era descobrir os números primos.

Se por qualquer razão tenho que escolher um número, sendo possível escolho um que termine em 7, ou então que a soma dos algarismos dê 7.

São coisas minhas mas às vezes estas coisas dão certo!!...

 

Funchal, 01-01-2023


segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Cantigas e brincadeiras da Festa

 

AS OITAVAS DA FESTA

Naquele tempo as oitavas da festa eram dias de folia e muita brincadeira.

Por serem dias santos era obrigatório ir à Missa mas depois havia muito tempo livre e ao fim da tarde o largo da ponte enchia-se de gente; homens e mulheres, rapazes e raparigas, grandes e pequenos brincavam e cantavam em animados convívios.


No assento encostado à venda do padrinho juntavam-se os homens e rapazes mais velhos, às vezes a jogar à bisca ou à milhada mas muitas vezes também ao jogo do farelo. Muitos metiam a cabeça no cocho (podia ser um casaco aberto que alguém segurava para tapar os olhos do sacrificado) e ali ficavam por um bom bocado com a palma da mão virada para cima, levando palmadas ora deste ora daquele, algumas tão fortes que só de ouvir o estalo doía, até acertarem naquele que lhes tinha dado a última palmada e saírem dali com as mãos a arder como brasa. Às vezes sempre havia alguma rapariga mais arrojada que entrava no jogo, mas eram poucas as que se atreviam porque as palmadas não eram nada suaves.


Um pouco mais abaixo juntavam-se as mulheres e raparigas com os mais pequenos em jogos e cantigas de roda.

Jogava-se ao jogo do lenço, ao jogo do anel e ao pisca-pisca ou jogo dos namorados: o jogo era feito aos pares e um sozinho no meio da roda piscava o olho a alguém e tentava roubá-lo ao outro para ser o seu par.  Assim as raparigas e rapazes mais velhos já iam deitando o olho e namorando aquele ou aquela que lhes interessava.

Em roda cantava-se:

Borboleta branca que se atira ao ar

A menina Ana não se quer casar

(…)

           Muito chorei eu no domingo à tarde

Aqui está meu lenço que fala a verdade

(…)

A Teresinha de Jesus

Deu uma queda foi ao chão

(…)

Ó amendoeira que é da tua rama

Por causa de ti tenho o meu amor em chama

(…)

Lá vai o paspalhão pra o meio

Para a roda não andar

(…).

As rodas enchiam o largo da ponte e as cantorias ouviam-se por todo o sítio. Eram momentos de alegria e são convívio em que se ocupava o tempo livre daqueles dias, porque nesse tempo não havia televisão e ainda estava longe de chegar aos nossos lados.

E era assim que a gente se divertia e passava os dias da Festa.

 

 

Funchal, 27-12-2021

 

 

  

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

É Natal, já cheira a pão fresco!...



O PÃO DA FESTA

O dia em que se amassava o pão da Festa era dia de azáfama e correria.

Na véspera era preciso pôr tudo pronto: a lenha de faia, fundamental para fazer o forno porque deixava o pão mais corado e bonito, e uns gravetos secos de pinheiro e umas pinhas ou um braçado de parreiras secas para o lume pegar melhor, e algumas também para arder depois na porta do forno e não deixar descair o calor enquanto o pão cozia lá dentro. 

As folhas de couve também ficavam melhor apanhadas de véspera porque assim já estavam meio murchas e mais fáceis de arranjar para colocar por baixo das rosquilhas, bem como umas folhas de bananeira que se ia buscar à Fonte de Baixo e que a mãe já cortava com a tesoura em bocados para colocar por baixo dos bolos doces ou bolos de noiva; as folhas de bananeira eram lisas, sem nervuras e deixavam a sola dos bolos mais lisinha. E não se podia esquecer de verificar se o cabo da pá estava em condições, arranjar o varredouro para varrer o forno e uma vara comprida também de faia para esbrasear, lavar o alguidar e a tendeira e às vezes a mãe já cozia a batata doce porque no outro dia podia não haver tempo. Era preciso ter estas coisas todas prontas antecipadamente para depois não atrapalhar a amassadura do pão.

A mãe levantava-se de madrugada para amassar os bolos doces porque demoravam mais tempo a levedar. Quando acordávamos sentíamos logo o cheiro a canela e limão que vinha da cozinha e se espalhava pela casa toda. Enquanto os bolos levedavam a mãe já fazia o fermento e arranjava as batatas para o pão.

Depois dos bolos cozidos e arranjados com um pouco de manteiga para ficarem lustrosos, começava-se então a amassadura do pão.


Toda esta azáfama era sempre docemente polvilhada com algumas cantigas de Natal, à mistura com histórias de outros Natais que a mãe sempre contava. Nestas histórias tinham lugar habitual os brindeiros e as laranjas que a avó dos Barros oferecia aos netos na primeira oitava, as cantigas e brincadeiras do tempo dos avós e dos tios das Fontes ou as antigas romarias da Noite de Natal que sempre nos encantavam.

Entre as cantigas apropriadas ao amassar do pão não podia faltar aquela que eu sempre achei engraçada e me fazia imaginar a avó Silvéria toda sorridente às voltas com uma amassadura de pão:

_ Minha mãe mandou-me à lenha

Trouxe lenha de folhado

Toda a noite queimou lenha

Com o dentinho arreganhado.

 

Minha mãe mandou-me à lenha

Trouxe lenha de giesta

Minha mãe ficou contente

Pra amassar o pão da Festa.

   Entre cantigas e um copo de vinho, (o jarro do vinho não podia faltar em cima da mesa quando se amassava) lá se ia tendendo o pão, esbraseando e varrendo o forno, para em seguida levar lá para dentro com a pá, os maios e as rosquilhas já lêvedos e colocados em cima da folha de couve, o que lhe conferia aquele sabor especial.

Porque era da Festa, nesta amassadura de pão havia sempre as rosquilhinhas e os brindeiros que a mãe tendia com toda a perfeição. O mais bonito dos brindeiros era sempre para a tia que mais do que ninguém valorizava estas tradições, e a mãe fazia-o mesmo com essa intenção.

E enquanto o pão cozia, já se ia preparando as pudineiras e mexendo o bolo preto que iria a cozer quando o calor do forno estivesse mais brando, depois de cozido todo o pão.

A lida só terminava depois de se limpar e arrumar a cozinha.

Ao fim do dia o cansaço já era muito, mas sempre bem compensado pelo cheirinho a pão fresco e a bolo preto cozido que nos fazia sentir verdadeiramente que logo seria o Dia de Natal.

São momentos e vivências que não se esquecem, lembranças muito estimadas que sempre farão parte da nossa Festa e do nosso Natal.

 

Funchal, 23-12-2021

 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Espírito de Natal

ESPÍRITO DE NATAL

Começou a euforia do Natal.

Os espaços comerciais há muito que se mostram engalanados a preceito e é ver o povo de um lado para o outro, já às pressas como se não houvesse amanhã, como se o tempo fosse acabar. 

Não sei se será o espírito de Natal ou se é mesmo deixar-se seduzir pelas vistosas ofertas nas montras das lojas ou pelas montanhas de caixas de bombons e chocolates de várias qualidades empilhadas à entrada dos supermercados, ali colocadas quase de propósito para que os mais gulosos não lhes consigam resistir. Mas é certamente o modo pessoal como cada qual vive esta época e aquilo que valoriza e considera ser importante na sua vida.

        Ainda faltam quase duas semanas para o Dia de Natal mas eu não tenho por hábito entrar nesta euforia, gosto de entrar com calma nos preparativos, só depois de ter arrumado o meu trabalho docente.

Vou deixando a vida seguir o seu ritmo habitual até à semana da Festa e então aí deixo que o cheiro a Natal me envolva e me faça sentir o seu verdadeiro espírito.

Não obstante, há aquela inevitável nostalgia de Natal que sempre chega de mansinho e silenciosamente se vai instalando sem me pedir licença, e eu não consigo dizer-lhe que não. Então, pouco a pouco, ela vai abrindo aquelas gavetinhas da minha memória, as gavetinhas de lembranças que se abrem sempre por esta altura, como se me quisessem dizer que tal como o Menino Jesus deve sempre sair da sua caixinha pelo Natal, também elas não devem ficar fechadas, precisam sair para ocupar o lugar que lhes é devido no meu espírito do Natal.

E são muitas as lembranças que se entrelaçam em histórias verdadeiras de outros Natais, cantigas e brincadeiras de crianças, coros de anjos e romarias, risos e gargalhadas, o genuíno espírito do Natal que nos envolve desde pequenos e que até hoje continua bem vivo na nossa alma.

Porque o Natal também é feito de lembranças e de muita saudade.

 

  


segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Sobre um Auto de Natal...

 

Auto de Natal, no edifício P3 da Escola dos Ilhéus (1996)


PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO 

Todos os anos, quando se começa a falar do Advento, leva-me o fio da lembrança para aquele Auto de Natal que inúmeras vezes levei à cena com os meus alunos quando era professora de Expressão Musical e Dramática. De tantos ensaios que fiz, o texto ficou-me gravado na memória e até hoje sei-o de cor.  

A peça começava com a entrada de um pastor que se mostrava muito surpreso por ver tantos meninos juntos e sem pasta, e desenrolava-se com um grupo de meninos a explicar o porquê de estarem ali todos juntos. A certa altura um dos meninos fala do Advento e o pastor muito admirado pergunta silabando:

_”O A-de-ven-to?!... Expliquem-me, não compreendo!...”

E os meninos continuam a sua explicação:

“_É que Jesus nosso Bem, nasceu como tu sabes, um dia em Belém; e todos os anos pelo Natal ele quer voltar a nascer!...”

E o diálogo continua até ao final com aquela frase: “…porque o Menino, rosa em botão, a todos bate no coração”.

Este Auto de Natal é muito simples mas também muito didáctico. Sempre achei muita graça àquela frase do pastor quando pede aos meninos que lhe expliquem o que é o Advento. A forma expressiva como colocava a questão deixava também os restantes alunos muito curiosos à espera da resposta. Através desta conversa entre o pastor e os meninos, todos os alunos que assistiam à peça aprendiam um bocadinho o significado deste tempo do Advento como preparação para a vinda do Salvador.

E é por ser simples que este Auto de Natal me tocou para sempre o coração.


Funchal, 28-11-2021

sábado, 27 de março de 2021

História com pés de inhame

 O MELHOR É PARA O PAI

Durante muitos anos, desde o tempo da avó Serafina, a terra do inhame era mesmo ao pé de casa, separada da vinha apenas pelo corgo que descia da levada do Encontro. Estava ali mesmo à mão, para quando fosse preciso se cavar dois ou três pés para arranjar e pôr a cozer na panela do almoço.

Cozia-se inhame em qualquer dia do ano ou desde que houvesse, mas era obrigatório pela Semana Santa, no almoço da Sexta-feira da Paixão.

Neste tempo Pascal havia quem cozesse aquele inhame branco que crescia nos olheiros e dava uns pés bem grandes, mas esse demorava muito tempo a cozer; então a mãe cozia do que nós tínhamos, o inhame de sequeiro, assim chamado porque crescia em terra normal, sem precisar de muita água e cozia muito mais rápido do que o outro.

A mãe gostava de inhame e cozia-o junto com espigos de couve, batatas de arroba e carne de porco, ou com semilhas e bacalhau. Às vezes, arranjava duas ou três bolotas das mais pequenas e juntava-as à sopa de couve.

Não me lembro se todos em casa gostavam de inhame, mas eu gostava, principalmente quando era no cozido, embora não me agradasse muito quando entrava na sopa de couve. Sempre gostei dos pezinhos mais pequenos que me pareciam mais gostosos; não sei se esta preferência se devia às histórias que a mãe contava ou então porque gostava mesmo mais das bolotas pequenas.

A mãe tinha histórias para tudo, até para os dias em que ao almoço havia inhame cozido no meio das semilhas e batatas de arroba, na travessa em cima da mesa da cozinha.  Eu ouvia as histórias e associava-as sempre connosco, imaginando as cenas como se estivesse a fazer parte delas.

Contava a mãe (com o seu humor característico!!...), o episódio de uma certa família que um dia havia cozido uma panela de inhame para o almoço. Quando estavam a almoçar, e porque o maior deveria ser sempre para o pai que era o cabeça de casal, as filhas foram escolhendo para elas os pés de inhame mais pequenos e deixando os maiores para ele. “Este é para o pai- dizia uma; este é para o pai- dizia outra…” mas no final do almoço elas é que tinham comido o melhor, porque os pés de inhame maiores tinham ficado meio encruados e por isso não eram tão bons como os mais pequenos. E o remate desta história era que nem sempre o que é maior em tamanho é melhor em qualidade, mas o melhor deve ser sempre para o pai.

Esta é uma das muitas histórias da Teresinha das Fontes, a nossa mãe, que lá no céu há-de estar a rir-se, como também se ria quando nos contava estes episódios, ao ver que a sua memória (que tanto pedia a Deus para lhe conservar!!...) afinal não se perdeu; continua naqueles que com ela à volta da mesa da cozinha, entre um pé de inhame ou uma batata de arroba, também se riam e mesmo sem o saber guardavam na lembrança estas pequenas coisas que hoje dizem ser a sua saudade.