sexta-feira, 13 de julho de 2018

Professora sempre!...


CENAS DA VIDA DE UMA PROFESSORA

A cena passa-se na baixa da cidade do Funchal, mais propriamente em frente à estátua de João Gonçalves Zarco. Ia eu a passar por ali quando oiço a voz de uma criança a perguntar:

- Pai, quem foi o João Gonçalves Zarco?

Olhei e ali mesmo ao meu lado ia um casal de Portugal Continental, já na casa dos quarenta anos, com o filho que deveria ter uns nove anos, o qual havia feito a dita pergunta.

Fiquei à espera de ouvir a resposta, mas nem o pai nem a mãe abriram a boca para responder à pergunta do filho. Então, eu que adoro História de Portugal e do mesmo modo adoro ensiná-la aos meus alunos, aproveitei e ali mesmo dei uma lição de História de Portugal ao filho e mais ainda aos pais.

Expliquei quem foi João Gonçalves Zarco e realcei por mais de uma vez, com todas as palavras, que todo o português que se preze deve saber este facto da História de Portugal, pois Porto Santo e Madeira foram as primeiras ilhas a serem descobertas pelos navegadores portugueses. O pequeno olhou para mim admirado e ainda me fez mais umas perguntas, mas eu acho que mais espantados estavam os pais ao admitirem a sua ignorância. No entanto, com toda a delicadeza, agradeceram a explicação.

Passada a cena, dei por mim a pensar como muita gente ignora factos importantes da nossa História, tão importantes para sabermos quem somos e de onde viemos mas sobretudo para termos conhecimento da nossa identidade como portugueses que somos.

Pensei também que só mesmo uma professora como eu, que a toda a hora está a ensinar, daria assim uma lição de História em plena cidade do Funchal, sem sequer ter sido solicitada.

Ensinar é um hábito que desenvolvemos e aprimoramos mas é um dom que já nasce connosco. Quem, como eu com orgulho, um dia vestiu o fato de professora, não o irá despir nunca mais.

Professora para toda a vida!...


Funchal, 13-07-2018

quinta-feira, 29 de março de 2018

Quinta-Feira Santa


VENEREMOS, ADOREMOS

A igreja não está cheia como noutros tempos em que os bancos sempre eram poucos para que todo o povo pudesse assistir sentado à cerimónia. Os novos são pouquíssimos, a maioria é gente de meia-idade; o coro, embora pequeno, lá vai conseguindo com a ajuda de algumas vozes daqui e dali que os cânticos se espalhem e se façam ouvir por todo o templo. Mas cheira a incenso e é Quinta-Feira Santa.

 A liturgia em tudo semelhante à de outros tempos, talvez seja um pouco mais leve e a cerimónia mais abreviada, mas o essencial permanece. A atmosfera que ali dentro se vive leva-me inevitavelmente para o meu tempo de criança e traz-me ao pensamento o exemplo daqueles que me ensinaram a viver a Semana Santa.

A leitura do Livro do Êxodo em que Deus diz a Moisés o modo como o povo hebreu, escravo no Egipto, deve proceder para celebrar a Páscoa, a sua passagem da escravidão para a liberdade, faz-me ouvir novamente a voz da mãe com toda a sua expressividade a contar aquele episódio, tal e qual uma verdadeira história. Uma imensurável saudade aperta-me o peito e quase me faz saltar as lágrimas, afinal ninguém como a mãe para contar as histórias da Bíblia e viver com tanto respeito e seriedade as cerimónias da Semana Santa.

Depois vem o Evangelho e a voz da mãe continua a fazer-se ouvir na minha lembrança, no momento do lava-pés, principalmente quando Simão Pedro se nega a que Jesus lhe lave os pés. Aqui a mãe dava o máximo da sua expressão e imprimia-lhe até uma certa graça, pelo que seria mesmo impossível não ter decorado a parte final (-Então lava não só os pés mas também a cabeça!..). A mãe tinha uma grande admiração por São Pedro e gostava muito de contar os episódios em que ele era interveniente.

E continuo a percorrer o fio da memória, já no final da cerimónia, em que me vejo ainda pequena, de joelhos como todo o povo, o cheiro do incenso por toda a igreja e eu a cantar aquele cântico que nunca esqueci, “Veneremos, adoremos…”.

Por mais do que um momento, no decorrer desta missa de Quinta-feira Santa, dou por mim a agradecer a Deus por me ter dado a minha mãe, o meu melhor exemplo de vida. A mãe que melhor do que ninguém, com grande mestria e inteligência (ou não tivesse sido catequista!…), me soube ensinar estas histórias e valores, os alicerces da pessoa que hoje sou e que hei-de levar comigo para o resto da minha vida. Esta é, sem dúvida, a melhor maneira que tenho de honrar a sua memória.


Funchal, 29-03-2018  

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Uma história de nomes


NOMES DE SANTOS

No tempo dos meus avós, quando nasciam os filhos, havia em muitas famílias o hábito de lhes dar o nome do santo do dia em que tinham nascido, ou de outro santo do qual os pais fossem devotos. Assim também sucedeu na família do nosso avô materno, Manuel Machete, o avô das Fontes.

            A mãe gostava muito de contar a história dos nomes dos seus irmãos, os nossos tios, e eu sempre me encantei com estas histórias.

O mais velho do casal era o tio António Cipriano, assim chamado por ter nascido no dia de São Cipriano; o tio João Ildefonso tinha o seu segundo nome em honra de Santo Ildefonso; o tio Agostinho Silvano também devia o seu nome a São Silvano; a tia Maria Segunda tinha o mesmo nome de uma tia, irmã da avó Silvéria e a nossa mãe, Teresa de Jesus, por ter nascido em Outubro, teve o seu nome associado a Santa Teresinha do Menino Jesus.

Quando nasceu o tio mais novo da casa, sucedeu uma história engraçada a propósito do seu nome. O tio Manuel, filho mais velho pelo lado paterno, mas criado desde pequenino pela avó Silvéria com todo o seu carinho de mãe, foi perguntar à avó qual o nome que iam dar ao menino. Como a resposta fosse que ainda tal não estava destinado, resolveu dar a sua opinião. Então lá foi dizendo que todos os outros irmãos já tinham nomes dos tios da família da avó dos Barros e que o tio Francisco do Canto da Ponte, irmão do avô, estava “reinando”, ou seja, aborrecido porque ainda não tinha nenhum com o nome dele.

E para satisfazer o desejo do tio Manuel, o nosso tio mais novo recebeu o nome do tio paterno e chamou-se Francisco André, de todos o nome mais bonito, embora os outros também fossem bonitos, como sempre com muito orgulho (e com razão!...) a mãe o referia. E foi realmente uma família de Machetes com nomes bonitos, compostos com o sobrenome “de Oliveira Rodrigues”, da qual também sinto muito orgulho.

Embora, com muita pena, não tenha chegado a conhecer pessoalmente todos os tios, é como se os tivesse conhecido, porque sempre estiveram presentes nas histórias que a mãe nos contava, mesmo que na realidade vivessem no outro lado do oceano, nessa terra imensa e encantada que é o Brasil da nossa saudade. Os seus nomes hão-de ser para sempre lembrados, não só porque fossem bonitos, mas porque são ramos da nossa história.


Funchal, 17-02-2018

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

As cantigas da rádio


O RÁDIO DE PILHAS

O rádio transístor de capa preta toda aos furinhos era de Pedro. Foi-lhe oferecido pela tia numa das suas frequentes demonstrações do carinho e estima que nutria pelo sobrinho mais velho. Tinha o seu lugar fixo em cima da mesa da cozinha, no lugar da cabeceira que ficava perto da janela e onde só Pedro e mais ninguém se sentava às refeições. O lugar da outra cabeceira era inquestionavelmente o lugar do pai.

O rádio de Pedro funcionava a pilhas, mas como não apanhava bem a frequência foi preciso arranjar-lhe uma antena, presa numa vara alta fora da janela, o fio enrolado no próprio aparelho e ligado na tomada da cozinha, tudo engenhocas dele que até deram bom resultado.

Este rádio fez parte da nossa vida de pequenos durante alguns anos e era através dele que ouvíamos as cantigas que estavam em voga nesse tempo.

Quando Pedro chegava a casa vindo do trabalho, a primeira coisa que fazia era ligar o rádio.

Durante a tarde, quando estávamos por casa, era logo sintonizado o Posto Emissor do Funchal (Aqui Funchal, Posto Emissor de Radiodifusão, CSB 91, Onda Média!...) para ouvirmos a Música Pedida. Havia cantigas que eram pedidas diariamente e nós já ficávamos à espera que elas surgissem para também as cantarmos em simultâneo, pois de tanto as escutarmos até já as sabíamos de cor. O mesmo acontecia com as publicidades que nós também achávamos graça e repetíamo-las muitas vezes nas nossas brincadeiras. Lembro-me sempre daquela publicidade do Império das Louças, na época de Natal e também aquela da agência de viagens que informava os passageiros da data de saída do barco com destino a Miami, mas antes parava em La Guaira, na Venezuela.

À noite já não havia música pedida mas havia um programa humorístico muito engraçado que nos fazia soltar gargalhadas com as peripécias de um tal “João do Cabeço”, cujas piadas seriam muitas vezes replicadas pela mãe por qualquer coisa que viesse a propósito.  

Mesmo depois de já estarmos deitados e de luzes apagadas, Pedro continuava com o rádio ligado, um pouco mais baixo para o pai e a mãe não ouvirem no quarto deles, mas eu ouvia muito bem porque o nosso quarto era mesmo ao lado. A essa hora ele ouvia as notícias na Emissora Nacional e o inesquecível “Quando o telefone toca” que também eu gostava muito de ouvir.

Este gosto de ouvir rádio não se perdeu com o tempo nem mesmo com as modernas tecnologias. No meu balcão da cozinha há um lugarzinho reservado para o meu rádio. Desde que esteja na cozinha tenho-o sempre ligado e não prescindo da sua companhia ao pequeno-almoço. E é sempre uma boa companhia!...

 



 

  

domingo, 28 de janeiro de 2018

Os pobres de hoje em dia...

PEDIR JÁ NÃO É VERGONHA
Mudam-se os tempos e mudam-se as vontades, como bem dizia Luís de Camões.

Com a mudança dos tempos mudaram as prioridades na vida, os desejos e os objectivos também são diferentes, a honestidade e a vergonha são coisas do antigamente; o que interessa é o parecer ter igual aos outros, mesmo que para isso o esforço seja mínimo ou até nenhum.

A realidade é que há por aí pessoas tão habituadas a viver do “se me dão” que nem têm noção da figura ridícula que são capazes de fazer, apenas para conseguirem satisfazer um pequeno capricho seu.

Antigamente, quem pedia na rua ou à porta de alguém era mesmo por necessidade, por uma questão de sobrevivência, porque havia realmente casos de pobreza e miséria. Mas até neste aspecto os tempos mudaram e hoje mesmo tive oportunidade de comprovar aquilo que estou a dizer.

Ao início da tarde de hoje, estava eu no supermercado quando fui abordada por um rapaz de quinze ou dezasseis anos e já com barba que me pediu dinheiro porque tinha fome e ainda nem tinha almoçado. Olhei para ele, gorducho e bem nutrido mas não me pareceu com cara de quem passa fome. Incrédula e com ar interrogativo olhei-o bem e ele voltou a insistir que ainda não tinha almoçado. Incapaz de me conter retorqui-lhe:

- Ó rapaz! Com esse corpinho pensas que eu acredito em ti? Vai mas é trabalhar! Pega numa vassoura e começa a varrer porque o dinheiro não cai do céu!

Não sei se ficou envergonhado, mas deu meia volta e logo depois vi-o sair do supermercado.

Quando passei pela caixa comentei o sucedido com a funcionária e ela disse-me que deveria ter chamado o segurança porque ninguém pode pedir dinheiro dentro do supermercado.

Mas o mais interessante veio depois. Quando passei na zona da restauração dei de caras com ele, o ar mais descontraído deste mundo, sentado à mesa juntamente com outros companheiros, a desfrutar de um enorme gelado. Aproveitei para lhe dar uma lição dizendo-lhe que da próxima vez que for pedir dinheiro não o faça dentro do supermercado e que podia ter chamado o segurança. Ele baixou a cabeça e nem abriu a boca, porque percebeu que tinha sido apanhado.

Resumindo e concluindo: a vergonha é coisa que já não existe e até os pobres que hoje pedem na rua são diferentes dos de antigamente.



Funchal, 28-01-2018

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Sopa de couve


A CULPA FOI DO FEIJÃO SECO
            Enquanto faço o jantar vou-me lembrando da mãe. Naturalmente que por qualquer motivo e a qualquer hora do dia ou da noite me lembro dela, mas hoje lembrei-me sobretudo por causa do meu jantar que já saíu um bocado tarde.

Nos meus telefonemas diários que mais ou menos a esta hora costumava fazer para a mãe, entre outras coisas falávamos do jantar. Eu gostava de saber o que a mãe tinha feito para o jantar, se já tinha jantado e normalmente por esta hora a mãe já se tinha despachado. Às vezes era a mãe que telefonava para saber de nós e muitas vezes acontecia que o jantar ainda não estivesse pronto. Então a mãe logo dizia que o nosso jantar era como os dos Serradores.

Os Serradores eram uma família oriunda de Santo António do Funchal que tinha ido viver para São Vicente. Tinham hábitos alimentares diferentes das gentes de lá do sítio e pelo que a mãe dizia, quando já toda a vizinhança tinha ceado, na casa deles ainda tinham ao lume a panela do milho, por isso ceavam sempre tarde, quando o resto dos vizinhos já estavam amanhados para se deitarem.

Hoje o meu jantar foi mesmo como a ceia dos Serradores, mas a culpa foi do feijão seco que demorou a cozer. Uma sopinha de couve como a que a mãe fazia tem que levar feijão manteiga, à moda da nossa casa, senão perde a graça. E já está cozida mas tenho que deixá-la compor, para então saboreá-la pensando na mãe e nas histórias que sempre tinha para cada ocasião.

 

Funchal, 25-01-2018

 

 

sábado, 20 de janeiro de 2018

Sempre com Deus...


DEUS NA MINHA VIDA

Eu e Deus sempre convivemos em perfeita harmonia.

Conheci-O em tenra idade, quando com apenas duas semanas de vida fui baptizada e o seu Espírito entrou na minha alma.

À medida que fui crescendo, Deus nunca me faltou e sempre acompanhou todos os meus passos. Apesar de não O ver, sabia que estava sempre presente, pois uma das primeiras coisas que aprendi, desde que me conheço, foi que Deus está em toda a parte. Ensinaram-me, eu acreditei e continuei acreditando ao longo dos anos.

Não me lembro de alguma vez ter olhado para Deus como um Alguém castigador. Apesar de saber distinguir um simples pecado de um pecado mortal, mesmo sabendo na ponta da língua os sete pecados capitais, aprendi a olhar para Deus como aquele ser superior que está sempre ao nosso lado, ajudando nas coisas mais simples ou apoiando-nos nas decisões mais importantes que tenhamos de tomar.

Em momento algum me passou pelo pensamento que Deus não existisse, e assim fui convivendo com Ele no seio da família, na igreja ou na catequese.

Confesso que já depois de adulta tive uma fase em que nos desencontrámos por alguns tempos. Por vezes, novas pessoas que vamos conhecendo e o meio em que nos movemos quase nos desviam de amizades mais antigas. No auge da nossa juventude, não podemos ou não queremos destoar das ideias daqueles com quem diariamente convivemos e assim vamo-nos deixando levar pela mesma maré e pela mesma onda em que navegam o seu barco, já que também estamos dentro dele.

Eu e Deus andámos cada um para seu lado, como velhos amigos que a vida levou por diferentes caminhos, mas nunca deixaram de pensar um no outro; quando voltam a encontrar-se abraçam-se com emoção e reparam que aquele laço que desde sempre os uniu afinal não se rompeu, continua com o nó bem apertado apesar do desencontro.

Reencontrei Deus nos momentos mais tristes da minha vida, quando perdi aqueles que me eram mais queridos, naqueles momentos em que muitos se desiludem com Ele e duvidam da Sua existência. Nesses momentos em que a tristeza tomou conta da minha alma, nunca duvidei de que Deus estivesse ao meu lado. Foi acreditando nesta certeza que consegui vencer a tristeza e ultrapassar a dor e a saudade imensa que preenchiam os meus dias.

Eu e Deus voltámos a encontrar-nos e agora penso que não haverá mais nenhum desencontro. A maturidade permite-me afirmar que estarei sempre com Ele, como Ele sempre esteve ao meu lado. E também sei que continuaremos a conviver em perfeita harmonia.

 

Funchal, 20-01-2017