domingo, 2 de outubro de 2016

Rosário 2016


SÁBADO DO ROSÁRIO (séc. XXI) 

Foi uma noite do Rosário bonita e o bom tempo veio torná-la ainda mais agradável.

A igreja toda engalanada em tons de branco e rosa e a banda de música a tocar no coreto; o adro, o largo e a ponte enfeitados com flores de variadas cores, qual tapete de riscas onde sobressaem o amarelo, o vermelho e o azul; as bandeiras amarradas aos mastros, as luzes acesas e as barracas de quinquilharias com toda a variedade de chapéus que saltam à vista; o povo pela ponte adentro e o reco-reco das castanholas misturados com as cantigas ao despique nos brincos que se fazem aqui e ali; o fumo das fogueiras e o cheiro a espetada no lado das barracas… Em quase tudo uma noite semelhante ao Rosário dos meus tempos de pequena.

No meio de toda esta atmosfera que me transporta para esse tempo em que a noite do Rosário era repleta de uma contagiante alegria, dentro de mim continua latente uma grande nostalgia e aquela pontinha de tristeza que bem lá do fundo da minha alma, teimosamente vem ao de cima, mas eu vou lá e escondo-a para não entristecer porque na noite do Rosário o que se quer é alegria. Só que agora é uma alegria diferente.

É uma alegria e satisfação encontrar e falar com pessoas que só vemos lá de tempos a tempos e sobretudo nestas ocasiões. É um misto de alegria, tristeza e muita saudade ouvir falar da nossa mãe a alguém que nos viu nascer e crescer.

E lá está a mãe presente nas palavras da Gertrudes, que eu já não via há uns bons tempos e com quem já tinha saudades de falar: “ - Ainda hoje falei da Teresinha das Fontes!...”; e eu já com as lágrimas nos olhos: “- Gertrudes não me faça chorar!...”

É impossível estar na Festa do Rosário sem pensar na mãe ou falar dela, por isso a sua presença ao nosso lado foi sempre uma constante, dando-nos ânimo para vivermos a festa com alegria e boa disposição, tal como ela também muito gostava. E é um orgulho muito grande sentir que aquelas pessoas que por ela sempre tiveram uma grande estima, tal como nós também sentem saudades. É sinal de que a mãe cumpriu bem a sua missão neste mundo.

 


 

domingo, 25 de setembro de 2016

À espera do arraial do Rosário


UM VESTIDO NOVO

Todas as mulheres e raparigas queriam ter um vestido novo para a Festa do Rosário. Então, logo depois do Bom Jesus da Ponta Delgada, as costureiras não tinham mãos a medir.

Pela manhã ou ao fim da tarde havia um vaivém, Caminho do Encontro acima, Caminho do Estreito abaixo, para casa da costureira, primeiro para tirar as medidas, depois pelo menos mais duas vezes para acertar o vestido e finalmente para levar o fecho, as molas ou os colchetes, as marcas ou os botões, tudo em segredo para que ninguém copiasse o modelo.

O vestido era estreado no Domingo do Rosário, o dia da missa solene e saída na procissão, com muitas promessas a serem cumpridas de círio aceso na mão; os olhares eram muitos, alguns até muito pouco discretos, e ao fim da tarde, quando a maior parte dos romeiros já se tinha ido embora para a sua freguesia e o adro da igreja já se encontrava mais à larga, muitas das conversas aos pares versavam sobre o vestido desta e daquela e qual deles seria o mais bonito.

Os padrões dos tecidos eram muito variados, alguns tinham vindo da Venezuela oferecidos por familiares, mas os modelos não diferiam assim tanto, porque a criatividade da costureira também tinha os seus limites; saia de pregas ou godés (água-dez, como se dizia!...), mais uma ou duas pregas aqui, outro macho acolá, manga simples ou franzida, gola redonda ou em bico, cabeção à sport, fecho atrás ou botões à frente, com ou sem algibeiras… Todos diferentes, mas sempre com algum pormenor semelhante porque a costureira também era a mesma.

Para compor a indumentária, não poderiam faltar os sapatos novos, comprados também em segredo na cidade, ali nas sapatarias da Rua dos Tanoeiros conhecida como a rua dos sapatos. Então dava-se a coincidência de surgirem na festa duas ou três raparigas com sapatos iguaizinhos, apesar de todo o segredo que envolveu a sua compra, o que era sempre motivo de alguma desilusão para aquelas que gostavam de um modelo exclusivo.

Na nossa casa, a mãe, eu e as minhas irmãs também tínhamos o nosso vestido novo para a Festa do Rosário. Lembro-me particularmente de um vestido que a mãe nos mandou fazer, quando éramos bem pequenas, ainda Teresa não tinha nascido.

A mãe veio à cidade, comprou popelina às florinhas, em tons suaves de rosa e azul e mandou fazer-nos na costureira, três vestidos iguais. De cintura descida como então se usava, franzido na cintura como a mãe sempre gostou, manga curta, cabeção redondo, uma palinha debruada com bordado suíço, abotoado atrás com botões e um palmo acima do joelho, porque nesse tempo a moda era a da minissaia. Estou a ver-nos as três com esse vestido e devo ter gostado tanto dele que me ficou na lembrança.

Mudam-se os tempos, e o que naquele tempo era de suprema importância é hoje apenas uma querida memória. A Festa do Rosário continua a estar intimamente ligada à vida de todos os que, tal como eu, ali nasceram e cresceram. É a nossa festa, o nosso arraial. Nossa Senhora do Rosário é a nossa padroeira a quem nunca deixaremos de manifestar a nossa imensa devoção, mas o vestido novo obrigatório para essa ocasião há muito tempo deixou de fazer sentido. O que não pode deixar de fazer sentido é ter fé e acreditar que Nossa Senhora do Rosário será sempre a nossa protectora!...

sábado, 17 de setembro de 2016

Rezas e benzeduras


DORES DE BARRIGA OU MAU-OLHADO

As rezas e as benzeduras faziam parte do dia-a-dia.

Quando alguém se sentia maldisposto, sem vontade de comer, com dores de cabeça ou com a cabeça estonteada recorria à curandeira que tinha rezas para todos os males: tanto podia ser uma camada de olhado, como um ar que tinha passado ou então o sol na cabeça que havia provocado aquele mal. Até se curava os animais que por vezes também eram alvo da inveja e do olho gordo de algum vizinho.

 Na nossa casa não era hábito a mãe levar-nos a curar do olhado, embora de vez em quando contasse aquele episódio de uma camada de olhado que alguém me deu quando eu ainda era criança de peito. Indo a mãe comigo ao colo a caminho das Fontes para visitar a avó Silvéria, uma vizinha dali perto olhou para mim e disse-lhe que tinha uma menina muito bonita, parecida com a avó Serafina. A mãe ficou contente com o elogio e ao chegar a casa contou o sucedido à avó Serafina, pensando que também ela haveria de ficar contente, mas tal não aconteceu. A avó respondeu que não lhe agradava nada gabas como aquela, ainda mais vindas daquela pessoa que ela conhecia muito bem. Olhado ou não, o certo é que no outro dia a menina só vomitava e não queria comer nada. E desde esse dia ficou decidido que quando a mãe precisasse de ir às Fontes a menina ficaria em casa com a avó para que não voltasse a suceder o mesmo.

Depois de todos um pouco já mais crescidos, quando nas nossas brincadeiras dávamos cabriolas em cima da cama ou virávamos o sino nas estacas da vinha, de vez em quando vinham as dores de barriga e o bucho virado. Então era mesmo a mãe que nos curava com uma massagem na barriga. Mandava-nos deitar em cima da cama e esticar as pernas; depois, com um bocadinho de banha de porco que tirava da púcara de barro lá nos ia massajando a barriga, as suas mãos escorregando de um lado e de outro deixando-nos a pele lustrosa e brilhante; dizia para ficarmos quietos e de boca fechada para ouvirmos a nossa barriga a roncar e realmente era assim que acontecia. Não sei com quem a mãe aprendeu a dar estas massagens, mas a verdade é que até alguns pequenos da vizinhança, quando estavam com o bucho enfustado, vinham à nossa casa para a mãe lhes passar a mão na barriga.

Eu não gostava nada destas massagens e o que me valia é que muito raramente me dava dores de barriga. Quando isso acontecia lembrava-me da Teresinha Batata, uma curandeira de lá de baixo das Feiteiras que costumava vir a casa da prima. Alta e esguia, de pele morena e toda vestida de preto porque com certeza seria viúva, só de olhar para aquela mulher eu já ficava cheia de medo. As suas mãos escuras, magras e de dedos compridos provocavam-me uma angústia só de imaginá-las a escorregar na minha barriga. Por isso, assim que eu a via chegar a casa da prima, fugia para casa com medo que também me viesse curar, e só voltava depois de ela se ter ido embora.

Para além desta muito remota lembrança, quando já era um pouco maior, às vezes também ia acompanhar alguma vizinha a casa da mulher do Gibinha que sabia curar de olhado. Em silêncio eu observava atentamente e ia ouvindo toda aquela reza que ela dizia enquanto ia fazendo cruzes com um galhinho de alecrim. Duas palavras me ficaram na lembrança - a postura e a formosura - que alguém podia invejar, e o modo como ela arrematava a sua reza, ao qual eu achava muita graça: - Este mal, deste corpo seja tirado, àquele mar seja deitado. O mar é poderoso, pode com o bem e com o mal. Fora mal!

 E porque se acreditava que estas rezas faziam bem, ao fim dos dias certos para essas benzeduras, aquele que se ia curar sentia-se logo melhor, porque o mal já lhe havia sido tirado.

Mas era preciso acreditar!...

 


 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Dia de anos é dia de festa...


DIA DE ANOS

Todos os dias de anos eram sempre lembrados e festejados, pois a mãe não deixava passar nenhum em branco.

Num tempo em que não era hábito receber prendas de aniversário, já nos sentíamos muito felizes quando pela manhã a mãe anunciava que ia arranjar um galo para o almoço porque um de nós fazia anos. Quando dava jeito, já na véspera a mãe fazia uma amassadura de pão, para termos umas rosquilhas de pão fresco nesse dia; assim já podíamos fazer umas empadas com carne de galinha, o que nos sabia sempre muito bem. Alguns de nós tínhamos o nosso dia de anos em datas assinaladas e festejadas: Pedro, no dia de São Pedro, eu, pela Festa do Monte e Agostinho, no Dia de Reis.

Nestes dias em que fazíamos anos, a mãe contava-nos sempre as histórias relativas ao nosso nascimento. Todos nós nascemos na nossa casa e o acontecimento envolvia toda a gente, desde a avó Serafina que estava sempre presente, até aos vizinhos que também deitavam a mão, ajudando no que fosse preciso. Então nós lá íamos ouvindo e sabendo a que horas tínhamos vindo ao mundo, se era dia ou noite, quem tinha sido a parteira, quem tinha feito as nossas roupinhas e quem tinha bordado o lençolinho, quando o pai tinha ido falar com o padrinho, em que dia tinha sido o baptizado e quem nos tinha levado à igreja, como tinha sido a festa e quem tinha vindo, e tudo o mais que a mãe se ia lembrando. O mais interessante era quando a mãe contava a história dos nossos nomes, sempre escolhidos pelo pai, que só lhe contava quando chegava a casa vindo da vila, do Registo Civil, com a nossa cédula na algibeira do casaco. Todos achávamos muita graça aos motivos que levaram o pai a escolher os nossos nomes, que a mãe sempre achou bonitos, excepto quando foi Clara, pois não ficou lá muito contente.

Estas e outras histórias ficaram gravadas na minha memória, mas sobretudo na minha alma e no meu coração. Agora que já não temos o abraço da mãe a dar-nos os parabéns e a narrar com mestria os factos da nossa vida, havemos de lembrar sempre com saudade aqueles pequenos momentos feitos de coisas simples mas que foram, sem dúvida alguma, os melhores que tivemos na vida.

 

domingo, 14 de agosto de 2016

Céu estrelado


CONTAR ESTRELAS

No meu tempo de criança, as noites claras e enluaradas do mês de Agosto despertavam em mim o enorme desejo de olhar para o céu salpicado de estrelas, que por ser Verão parecia que brilhavam ainda mais do que nos outros meses do ano.

Pensando naquela lição de que eu muito gostava - Luar de Agosto - do livro da terceira classe que dizia ser este o luar mais bonito do ano, eu olhava para o céu para confirmar se era mesmo verdade o que tinha lido no texto. Enquanto pensava na lição do livro punha-me a olhar as estrelas, a ver se conseguia apanhar alguma a correr de um lado para o outro, o que às vezes acontecia. E silenciosamente também contava as estrelas, mas contava-as mentalmente porque se o fizesse em voz alta podiam nascer-me verrugas nos dedos, pois como costumavam dizer os mais velhos quem contasse estrelas nascia-lhe verrugas e depois para tirá-las era um problema sério. Na inocência da minha tenra idade eu acreditava que assim acontecia, mas na verdade nunca me nasceram verrugas embora gostasse de contar as estrelas.

Este gosto que eu tinha de olhar para as estrelas tornou-se ainda mais acentuado quando na aula de ciências naturais, no primeiro ano do ciclo preparatório aprendi os nomes das constelações. Depois disso, sempre que via o céu estrelado olhava para ele vezes sem fim, tentando descobrir a Ursa Maior e a Ursa Menor que os mais antigos chamavam “As três Marias”.

Nos tempos de hoje, para saborear as noites de Verão, gosto de me sentar silenciosamente na minha varanda, passeando o meu olhar pelo céu, a observar as estrelas. Agora já não me importo contá-las mas ainda há poucos dias, por duas vezes apanhei uma estrela a correr de um lado para o outro. Também já não ando à procura da Ursa Maior ou da Ursa Menor, mas o meu olhar vai directamente para aquela estrela maior e mais brilhante, rodeada de outras estrelas mais pequenas. Junto com o meu olhar vai o meu pensamento de saudade para todos aqueles que já fizeram parte da minha vida e agora transformados em estrelas estão lá no firmamento. E sei que a maior e mais cintilante estrela é a minha mãe que de lá de cima continua a cuidar de mim.

 

sábado, 6 de agosto de 2016

Tempo de apanhar o trigo


A CEIFA

Quando chegavam os últimos dias do mês de Julho o trigo já se mostrava naquele tom amarelo dourado, querendo dizer que estava seco e pronto para ser colhido. Aproximavam-se os dias da ceifa e já se sabia que durante alguns dias o nosso caminho era o do Lombo.

Esta era uma tarefa que exigia alguma preparação para que tudo estivesse pronto naqueles dias. Alguns dias antes a mãe levava o trigo ao moinho para depois fazer uma amassadura de pão e arranjava as cobertas de retalhos e as sacas de pano grosso para o dia da debulha. Enquanto isso o pai já ia contratando homens, mulheres e raparigas para ajudarem na labuta.

O dia da ceifa começava bem cedo, com a mãe atarefada a fazer uma panela de café e a arranjar pão de casa com manteiga ou com ovos fritos para a matina daquela gente que tinha vindo dar o dia a trabalhar na apanha do trigo. Tomavam o café e seguiam para o Lombo, não sem antes terem molhado a garganta (aqueles que tivessem vontade!...) com o tal groguezinho de aguardente que a mãe sempre gostava de oferecer; com este pequeno incentivo, a subida do Lombo do Cantaria e a caminhada pela Levada do Encontro tornavam-se mais ligeiras e num instante chegavam ao Lombo.

O calor da azáfama e a poeira misturavam-se com a alegria, as cantigas e a boa disposição. Mulheres e raparigas, a cabeça coberta por um lenço ou chapéu de palha, arrancavam as espigas com a mão direita e colocavam-nas numa mão-cheia no seu lado esquerdo para depois os homens as recolherem uma a uma e formarem as maçadoiras que amarravam com um pequeno feixe de espigas. Depois iam-nas empinando de tal modo que pareciam engraçadas cabanas onde os mais pequenos logo aproveitavam para brincar às escondidas. Era divertido brincar à volta destas cabanas, correndo e sentindo nos pés descalços a terra quente, leve e fofa de onde há pouco se tinham arrancado as espigas do trigo. De vez em quando surgia no meio do trigo uma ninhada de murganhos que faziam as mulheres darem saltos e gritinhos enquanto os homens desatavam às gargalhadas e os pequenos corriam e se afastavam com receio de que eles lhes passassem por cima dos pés.
 
A mãe ficava em casa a fazer o almoço, semilhas americanas descascadas e cozidas com bacalhau. E como eram gostosas aquelas semilhas!... A mãe juntava-lhes umas cebolas novas cortadas em quatro que para além de as tornarem mais saborosas, eram depois acrescentadas ao molho de azeite e vinagre do bacalhau deixando-o ainda mais apetitoso.

O almoço, embrulhado na toalha branca de algodão era transportado na tampa de vimes, porque como era para muita gente o cesto de asa mais pequeno não dava para levar tudo. Era o nosso Pedro ou um dos rapazes mais novos que andavam no trigo que vinham a casa buscar a tampa e muito cuidadosamente a levavam às costas pela levada adentro até ao Lombo. E à sombra dos pinheiros ou em qualquer outro espaço onde se pudessem abrigar do sol e do calor, todos se sentavam a almoçar, acompanhando as semilhas americanas e o bacalhau com um copo do nosso vinho que logo de manhã tinha sido levado no garrafão de cinco litros, aquele garrafão de vidro verde-escuro forrado com palhinha trançada.

Depois de todo colhido, os homens com aquela enorme foice roçavam o trigo separando as espigas do restolho que depois de amarrado em molhos seria arrumado no sobrado do palheiro, para na devida altura ser usado na cobertura dos nossos palheiros. As espigas eram arrumadas em montes para daí a uns dias serem debulhadas. Às vezes o pai chegava a dormir no sobrado para cuidar do trigo durante a noite, não fosse algum amigo do alheio atrever-se a lá ir roubar algum trigo para aumentar a sua colheita.

Para nós os pequenos, estes eram dias bem passados. À tardinha chegávamos a casa cheios de terra dos pés até à cabeça, mas vínhamos muito descontraídos e felizes. Quando à noite depois da ceia nos sentávamos no terreiro a refrescar do calor, havia sempre as histórias e artices do dia para contar e as nossas alegres risadas que logo depois nos faziam cair na cama e dormir num sono só até ao outro dia de manhã.

 

domingo, 19 de junho de 2016

Os Santos Populares


TEMPO DE SÃO JOÃO

São João marcava o tempo. Era quase sempre uma referência para algum facto ou acontecimento que tivesse sucedido no mês de Junho. Quando alguém dizia que isto ou aquilo tinha sido pelo São João, já se sabia que era por esta altura do ano.

Pelo São João chegavam os dias compridos cheios de sol, amadureciam as primeiras ameixas, as de São João, e as outras já começavam a luzir; começava o tempo da fartura e das colheitas do trigo e das semilhas. Era o começo do Verão, o tempo em que se esquecia o Inverno e aqueles intermináveis dias cinzentos, com chuva, vento e frio de manhã até à noite. Por isso, toda a gente gostava de festejar o São João.

As tradições eram muitas e variadas.

Havia quem gostasse de enfeitar o terreiro com rebentos verdes de canavieira, galhos de louro verde e de alecrim porque se dizia que estas verduras ficavam benzidas na manhã de São João.

Uns dois dias antes, rapazes e raparigas juntavam-se e pela noite dentro enfeitavam as fontes, com as mesmas verduras e ainda com vasos de flores que iam buscar às casas dos vizinhos sem que estes se dessem de conta.

Na véspera de São João, à noite, saltava-se a fogueira no largo da ponte. Às vezes as labaredas da fogueira tornavam-se demasiado altas e só mesmo alguns rapazes mais destemidos se atreviam a saltá-las; o cheiro a louro e a alecrim espalhava-se por todo o sítio.

Na manhã de São João, havia quem tentasse adivinhar o seu destino tirando sortes. Dizia-se que a água da fonte estava benzida antes do sol nascer; então as raparigas levantavam-se muito cedo e iam à fonte encher a bochecha de água que só deitavam fora ao primeiro rapaz que encontrassem pelo caminho e seria esse o nome do rapaz com quem iriam casar.

Outra sorte era escrever nomes de rapazes em vários papelinhos enrolados que se colocavam debaixo do travesseiro e o que estivesse aberto pela manhã, seria o nome do rapaz com quem iriam casar.

 Também se tirava a sorte partindo um ovo inteiro para dentro de um copo de água e o desenho que o ovo fizesse na água seria o destino. Havia raparigas que viam a imagem de uma igreja e uma noiva com véu e logo deduziam que se iam casar; também havia quem visse um navio e porque tinha o marido ou irmãos embarcados acreditava logo que ia embarcar ao encontro deles.

Eu sempre achei muita graça nestas sortes mas não acreditava nelas; dava-me vontade de rir quando ouvia fulana e sicrana contar a sorte que lhes tinha saído, mas nunca tirei sortes, não me ia levantar de madrugada só para isso. No entanto, gostava muito de saltar a fogueira, lá isso não deixava passar, e ainda me lembro de ter chamuscado as pernas numa fogueira que já estava um pouco grande para o meu tamanho.

Mas o que eu gostava mesmo pelo São João eram as histórias que a mãe contava quando no seu tempo de rapariga ia com a avó e outras raparigas suas vizinhas enfeitar a fonte das Fontes. Segundo dizia a mãe, a avó Silvéria era uma grande entusiasta destas tradições e estava sempre pronta para acompanhar as raparigas nestas andanças, era mesmo a primeira da frente. Pelo meio destas histórias havia sempre muitas peripécias e as cantigas que a mãe alegremente nos cantava:

- “São João adormeceu nas escadinhas do coro, as moças deram com ele e beliscaram-no todo”. E na minha imaginação eu via o santo muito encolhido nos degraus do coro da nossa igreja e as raparigas todas à sua volta a dar-lhe beliscões.

- "Vem o Santo António, depois São João, por fim vem São Pedro para a reinação."

Esta e outras cantigas faziam parte do repertório da mãe que gostava de cantá-las de vez em quando, mesmo não sendo tempo de São João. Inevitavelmente, quando chega a esta altura, eu também me lembro delas e continuo a ouvir a bonita voz da mãe a cantar na minha memória.

Já não salto a fogueira desde esse tempo, mas enquanto Deus me conservar a minha voz, hei-de sempre cantar aquelas cantigas porque são elas que me lembram o tempo do São João.