quarta-feira, 30 de março de 2016

Sol de verão...


DIAS DE CALOR 

Nestes dias de sol e calor intenso, muitas vezes lembro-me da mãe.

A mãe não gostava mesmo nada do inverno: por causa da chuva, porque assim não podia ir ao Lombo ou às Fajãs, do frio que a obrigava a andar agasalhada e lhe punha roxa a ponta do nariz e também pelas noites grandes as quais, como ela mesma dizia, demoravam muito e parecia que nunca mais o dia clareava.

Então, quando o tempo aquecia mesmo, dizia com ar satisfeito que assim já podia andar de manga curta e os braços já podiam apanhar sol. E de lenço na cabeça, amarrado na nuca, lá ia para os seus afazeres, nas Fajãs ou no Lombo. Chegava a casa vermelha e acalorada, dizendo “que calmaria!...”.

Depois de descansar um bocado, aproveitava que estava muito calor e sentava-se a bordar debaixo da vinha, naquele banco improvisado que o pai havia arranjado com um rolo de tronco de pinheiro. Se estivesse sozinha, só com a gente por ali à sua roda, punha-se a cantar o que lhe viesse à cabeça, as cantigas do São João, do Max ou das Missas do Parto e do Natal; também contava histórias e acontecimentos de quando era mais nova, mas se tivesse a companhia de alguma vizinha aproveitava para por a conversa em dia.

Ai que saudades!...

 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Vermelho como eu gosto...


O MEU CASACO VERMELHO
Teria eu talvez uns sete anos quando tive um casaco vermelho, um casaco de abafo, como então se dizia.

Foi a tia que comprou o tecido em lã para a mãe nos fazer os casacos, para mim e para as minhas irmãs mais pequenas; quem os fez foi Teresinha do Mário que era costureira. O casaco foi feito à moda de então, curto com um palmo acima do joelho.

O meu casaco de abafo tinha duas algibeiras, uma de cada lado; os botões um pouco grandes, dourados e com uma casinha em relevo faziam-me olhar para eles vezes sem fim.

Eu adorava o meu casaco vermelho. Levava-o vestido para todo o lado, fosse à missa, à confissão ou à catequese, mas não o levava para a escola porque não era para usar de cote e sim naquelas ocasiões em que precisava estar melhor apresentada; era um casaco da missa.

Nunca me esqueci dele e ainda consigo ver-me com ele vestido. À distância dos anos, imagino que me deveria ficar bem, com a minha pele branca, o cabelo castanho escuro e os olhos azuis.

Devo ter gostado tanto daquele meu casaco que o guardei na minha memória e ainda hoje gosto muito de me ver vestida com a cor vermelha. É uma cor que sempre me fica bem!...

 
 

 

 

quinta-feira, 24 de março de 2016

Trigo verde, trigo loiro


À ESPERA DA CEIFA

            Na estação da Primavera todo o nosso Rosário se vestia de verde. Para qualquer lado que olhássemos podíamos ver as searas de trigo envoltas num maravilhoso verde tenro que encantava a nossa vista. Quem parasse por uns momentos ali na curva da Achada do Beirão, desfrutava da magnífica paisagem oferecida pela Achada do Loural com os seus muitos palheiros de restolho emergindo graciosos no meio dos verdes campos de trigo, imagem que se eternizou e percorreu o mundo através dos postais comprados pelos muitos turistas que por ali passavam em excursão. O mesmo acontecia à medida que se ia descendo a estrada até ao Lombo de Baixo: verde, verde e mais verde para onde quer que se olhasse.

Pela Quinta-feira de Ascensão, dia santo de guarda, era um regalo para a vista olhar os campos de trigo, já espigado e começando a amarelecer, salpicados aqui e ali por flores amarelas, os pampilros (pampilhos),  que as raparigas colhiam para fazer cordões com que se embelezavam nesse dia. Então era ver pela tarde, magotes de raparigas com esses cordões amarelos ao pescoço, descendo o Lombo por entre cantigas, brincadeiras e gargalhadas, até lá abaixo, à espera do Espírito Santo que regressava da visita à Ribeira Grande e Achada do Til. Ali mesmo na volta do Lombo seria celebrada a já esperada Missa Campal que dava por encerrada a Visita Pascal aos sítios da paróquia do Rosário.

            Quando chegava o Verão a paisagem começava a transformar-se. Aos poucos, os tons de amarelo e dourado tomavam conta dos campos e era um encanto ver o trigo a cintilar ao sol cada vez mais ardente, à espera da hora de ser ceifado.

E em finais do mês de Julho chegava a altura da ceifa, dias de verdadeira azáfama.

Homens e mulheres, rapazes, raparigas e crianças, a cabeça coberta por um lenço amarrado na nuca ou chapéu de palha, todos ajudavam a apanhar o trigo. Em todos os campos se viam grupos envolvidos nessa tarefa. De vez em quando, daqui e dali ecoavam as vozes das mulheres e raparigas cantando as cantigas próprias desta alegre faina agrícola, enquanto os homens com aquela grande foice iam roçando o trigo e separando as espigas do restolho.

Depois viriam as máquinas com aquele som característico e tão conhecido, para debulharem o trigo, separando o grão para um lado e a palha para outro.

Eram dias de grande labuta, mas era Verão; os dias compridos ajudavam a que se fizesse todo o trabalho e ainda sobrava tempo para um dedo de prosa ao luar de Agosto.


 

quarta-feira, 23 de março de 2016

Aqui chega uma visita...

O ESPÍRITO SANTO EM CASA DA TIA NARUÍNDA

No dia do Espirito Santo do Loural íamos sempre a casa da tia Naruínda.
Para nós este era um acontecimento importante e sempre muito aguardado.
No dia do Espírito Santo, em casa da tia Naruínda

Depois da missa de domingo, lá íamos todos subindo devagar o caminho do Loural. Era um caminho diferente, ao qual estávamos pouco habituados, pois só por lá passávamos esta vez no ano, e parecia que nunca mais chegávamos lá acima.


Quando passávamos ao pé do casarão, havia aqueles grandes eucaliptos que nos tapavam a vista e fazia um bocado de medo, então começávamos todos a correr por lá acima porque já sabíamos que faltava pouco para chegarmos a casa da tia.


 Como já era hábito a nossa visita neste dia, a tia Naruínda e todos os primos já estavam à nossa espera. Não sei como, mas lá se arranjava lugar para todos nós almoçarmos na mesa da cozinha; ainda hoje me lembro da canja de galinha que a tia fazia e, não sei porquê, tinha sempre um sabor diferente daquela que a mãe fazia na nossa casa.

Os primos, todos mais velhos do que nós, faziam uma festa com esta pequenada lá em casa, e as primas até nos tiravam algumas fotografias que  guardamos com muito carinho.
 
À tarde regressávamos a casa cansados mas felizes, contando repetir a visita no ano seguinte.



 

domingo, 20 de março de 2016

Cheiro de alecrim...


DOMINGO DE RAMOS

Logo pela manhã toda a gente se empenhava em arranjar o seu ramo para levar à missa e ser benzido. Podia ser um galho de laranjeira com flor ou também de acácia em flor, mas não podia faltar o alecrim.

A bênção dos ramos acontecia no Canto da Ponte e com as suas capas vermelhas, os irmãos do Santíssimo Sacramento recebiam um ramo de palma com uma fitinha de seda da mesma cor. Depois seguia-se a procissão, pela ponte para cá até à igreja onde se celebrava a missa. As vozes do povo cantando Hossana e Bendito ressoavam por toda a Capela Velha.

Dentro da igreja cheirava a incenso misturado com os aromas do alecrim, flor de laranjeira e acácia. O povo deixava-se envolver pela leitura da Paixão e pelos cânticos que embelezavam toda a cerimónia.

Aqueles ramos benzidos seriam depois colocados à porta de casa para afastar as invejas, o mau-olhado e os temíveis maus espíritos.

Começava a Semana Santa!










  




terça-feira, 15 de março de 2016

Vamos p'rà festa



O BOM JESUS DE PONTA DELGADA
 
A festa do Bom Jesus de Ponta Delgada era tão vivida quanto a Festa do Rosário, apesar de não ser na nossa freguesia. É um dos dois grandes arraiais do nosso concelho, e por isso sempre foi muito festejada. Em casa não podia faltar a já tradicional amassadura de pão, e o pai comprava sempre carne de vaca, para se fazer uma espetada no sábado à tarde e o guisado no almoço de domingo.
 
Na sexta-feira, mais ou menos pela hora do almoço, começavam a passar os romeiros para a festa; vinham a pé, dos lados do Sul e do Curral das Freiras. Desciam pelo Quebra-Panelas e a primeira paragem era no largo da ponte, na venda do padrinho, o senhor Faria. Logo ali faziam um brinco e o povo já ficava todo animado.
 
A mãe contava que naquele tempo em que vinham muitos romeiros, alguns pernoitavam nas casas de algumas famílias, preparavam ali as suas refeições (o tradicional caldo da romaria) e conviviam uns com os outros fazendo amizades que perduravam no tempo. Era uma brincalhada, como dizia a mãe. A cozinha da casa da madrinha enchia-se de romeiros e também a nossa casa, a da avó Serafina. Nas Fontes, a avó Silvéria estendia as cobertas de retalhos no chão da cozinha e no sobrado do palheiro, e muitos lá dormiam. Havia brincos ao toque do rajão e das castanholas, cantigas ao despique e muito convívio entre residentes e forasteiros. Alguns já deixavam destinado que no ano seguinte ali estariam, contando de antemão com o abrigo daquela família.
 
Depois da festa, a paragem era no Chão dos Louros. A segunda-feira do Setembro, logo depois do domingo da Ponta Delgada era um verdadeiro dia de festa para as gentes de São Vicente. Os romeiros paravam ali, havia barracas de comes e bebes e também bancadas de quinquilharias onde não podiam faltar as castanholas, os chapéus de palha e as carapuças de vilão. Havia quem fizesse uma espetada, outros faziam uma panelada, cozendo o almoço nos lares que lá havia, mas muita gente levava um grande farnel para fazer o seu piquenique. Toda a gente brincava e se divertia, ainda mais quando estava bom tempo.
 
Ao fim da tarde, lá vinham magotes de rapazes e raparigas descendo a Ponte Ladeira, passando pelas Covas e pelas Caldeirinhas, brincando e cantando aquelas cantigas que todos sabemos desde pequenos:
 – Viva o Chão dos Louros, viva a Encumeada; viva a nossa malta que está toda animada! – É São João, tiroliroliro; é São José, tiroliroliro; no garrafão, tiroliroliro; só tem jaqué!
 
Era assim que por aqueles lados se vivia o arraial da Ponta Delgada.
Outros tempos!...                  

 

Vem ali um brinco


SEXTA-FEIRA DE PONTA DELGADA

Este era um dia de muito movimento nas vendas e nos caminhos. Passavam os romeiros para a Festa do Senhor Bom Jesus e muita gente vinha para o caminho ver os brincos e a animação.

Uma vez, era eu ainda pequena, a mãe mandou-nos logo pela manhã, eu e Agostinho, às Fajãs apanhar os tomates que já estavam maduros, numa caseira que tínhamos num poio ali mesmo em frente ao palheiro de cima. Como os tomateiros estavam mesmo à beirinha do caminho, algum romeiro poderia ser tentado a apanhar os tomates e levá-los para fazer um guisado lá na Ponta Delgada. Então, lá fomos os dois, levando enfiado no braço um pequeno balaio daqueles feitos de canas.

Quando chegámos um bocadinho acima do Encontro, havia ali um descanso onde os homens costumavam descarregar por alguns momentos a carga que traziam, para aliviarem as costas. Por cima do dito descanso, havia uns galhos de silvado carregadinhos de amoras maduras que estavam mesmo a pedir para serem comidas. Como ainda era um pouco cedo, ali parámos; sem pressa nenhuma, lá eu me empoleirei em cima da parede que até nem era muito alta e pus-me a apanhar as amoras enquanto Agostinho as colocava no balaio para depois as irmos comendo no resto do caminho até às Fajãs.
 
Mal tínhamos começado a apanhar as amoras, já ouvimos uns toques de rajão e castanholas e, com muita pena nossa, tivemos que interromper a apanha das amoras e fomos embora depressa. Logo vimos um grupo de romeiros a fazer um brinco no Cabo da Vargem, ali mesmo ao pé da casa do José Gonçalves. Nós nem sequer parámos a ouvir o brinco, fomos o mais depressa que podíamos a caminho das Fajãs, com medo que os nossos tomates já tivessem sido apanhados. E se isso realmente tivesse acontecido, como iríamos dizer à mãe que por causa das amoras, não tínhamos ido direitos como nos tinha mandado. Esta é que era a nossa grande preocupação.

Para nosso descanso, os tomates ainda lá estavam e trouxemo-los como a mãe nos tinha mandado, mas este simples episódio, aparentemente sem graça nenhuma, ficou-nos gravado na memória e de vez em quando ainda falamos nele.

Como hoje é sexta-feira de Ponta Delgada naturalmente lembrei-me dele.