sábado, 20 de janeiro de 2018

Sempre com Deus...


DEUS NA MINHA VIDA

Eu e Deus sempre convivemos em perfeita harmonia.

Conheci-O em tenra idade, quando com apenas duas semanas de vida fui baptizada e o seu Espírito entrou na minha alma.

À medida que fui crescendo, Deus nunca me faltou e sempre acompanhou todos os meus passos. Apesar de não O ver, sabia que estava sempre presente, pois uma das primeiras coisas que aprendi, desde que me conheço, foi que Deus está em toda a parte. Ensinaram-me, eu acreditei e continuei acreditando ao longo dos anos.

Não me lembro de alguma vez ter olhado para Deus como um Alguém castigador. Apesar de saber distinguir um simples pecado de um pecado mortal, mesmo sabendo na ponta da língua os sete pecados capitais, aprendi a olhar para Deus como aquele ser superior que está sempre ao nosso lado, ajudando nas coisas mais simples ou apoiando-nos nas decisões mais importantes que tenhamos de tomar.

Em momento algum me passou pelo pensamento que Deus não existisse, e assim fui convivendo com Ele no seio da família, na igreja ou na catequese.

Confesso que já depois de adulta tive uma fase em que nos desencontrámos por alguns tempos. Por vezes, novas pessoas que vamos conhecendo e o meio em que nos movemos quase nos desviam de amizades mais antigas. No auge da nossa juventude, não podemos ou não queremos destoar das ideias daqueles com quem diariamente convivemos e assim vamo-nos deixando levar pela mesma maré e pela mesma onda em que navegam o seu barco, já que também estamos dentro dele.

Eu e Deus andámos cada um para seu lado, como velhos amigos que a vida levou por diferentes caminhos, mas nunca deixaram de pensar um no outro; quando voltam a encontrar-se abraçam-se com emoção e reparam que aquele laço que desde sempre os uniu afinal não se rompeu, continua com o nó bem apertado apesar do desencontro.

Reencontrei Deus nos momentos mais tristes da minha vida, quando perdi aqueles que me eram mais queridos, naqueles momentos em que muitos se desiludem com Ele e duvidam da Sua existência. Nesses momentos em que a tristeza tomou conta da minha alma, nunca duvidei de que Deus estivesse ao meu lado. Foi acreditando nesta certeza que consegui vencer a tristeza e ultrapassar a dor e a saudade imensa que preenchiam os meus dias.

Eu e Deus voltámos a encontrar-nos e agora penso que não haverá mais nenhum desencontro. A maturidade permite-me afirmar que estarei sempre com Ele, como Ele sempre esteve ao meu lado. E também sei que continuaremos a conviver em perfeita harmonia.

 

Funchal, 20-01-2017   

sábado, 13 de janeiro de 2018

A moda do véu...


O MEU VÉU DE TULE

Aquele era o tempo em que as mulheres, quando iam à missa, não podiam entrar na igreja com a cabeça descoberta. Era obrigatório cobrir os cabelos com um véu ou com um lenço. O véu ou o lenço era um acessório que fazia parte da roupa da missa.

As raparigas solteiras cobriam a cabeça com o seu véu branco de renda bordada, já as mulheres casadas usavam-no em tom cru e às vezes cinza prateado, mas usavam-no preto se estivessem de luto e para acompanhar os enterros, bem como no Dia das Almas e na Missa da Paixão na Sexta-feira Santa.

Depois de uma certa idade, com a maturidade dos anos, as mulheres gostavam de ir à missa de lenço na cabeça com as pontas atadas debaixo do queixo, e se fosse mulher viúva o lenço era preto, como não poderia deixar de ser.

Ainda pequena também tive o meu véu. Foi o véu da minha Primeira Comunhão, que não era de coroa como algumas pequenas usavam, mas em tudo idêntico ao véu das mulheres mais velhas.

O meu véu era branco, de tule e com florinhas e lacinhos bordados em toda a volta. Quando ia à missa ao domingo levava-o sempre e isso fazia-me sentir grande e importante como as outras raparigas, mulheres já feitas.

Parece que ainda estou a ver-me na igreja, sentada no banco da frente, de véu branco na cabeça e de livro aberto na mão, o inesquecível livrinho de capa azul que o Padre Sousa comprou para os pequenos da catequese aprenderem as orações e acompanharem a missa adequadamente.

Não me lembro exactamente em que altura deixou de ser obrigatório cobrir a cabeça para assistir à missa, mas sei que aquele foi o único véu que tive.

Depois de um pouco mais crescida as raparigas já iam à missa “em cabelo”, embora algumas mulheres mais velhas continuassem a usar o véu ou o lenço. Assim acontecia com a mãe que sempre teve o seu véu, e embora só em determinados momentos o pusesse na cabeça, não dispensava um bonito lenço quando ia à missa. Quase sempre levava-o sobre os ombros e só o colocava na cabeça com as pontas atadas debaixo do queixo se houvesse necessidade de se proteger do frio, nas agrestes manhãs de inverno em que subir a Rochinha nos enregelava até as orelhas.

E a moda do véu foi e não voltou!...

 

Funchal, 13-01-2018

 

domingo, 31 de dezembro de 2017

À espera do Ano Novo!...


EM JEITO DE BALANÇO

Não tenho o hábito de fazer balanços de anos passados nem tão pouco de traçar objectivos para o novo ano que chega. O que lá vai, lá vai e o que no futuro vier havemos de receber com a disposição que na altura tivermos, acreditando sempre que tudo aquilo que a vida nos traz faz parte da nossa caminhada por este mundo.

Quando eu era pequena punha-me a imaginar que pessoa seria e como seria a minha vida quando chegasse o ano dois mil, mas a imaginação diluía-se no horizonte do meu pensamento e obviamente não conseguia ver o que sou hoje, passados já tantos anos desde a chegada do terceiro milénio. Planos não fazia, mas nas minhas diárias orações de criança e nas Avé-Marias que sempre rezava antes de adormecer pedia a Deus e a Nossa Senhora do Rosário que me ajudassem a ter boas notas e a ser boa aluna. Eram esses os meus grandes desejos do momento que com a graça de Deus nunca deixei de alcançar.

Hoje os meus desejos são naturalmente outros, mas não penso neles apenas na entrada do ano novo. Penso neles todos os trezentos e sessenta e cinco dias do ano, continuo a pedir a Nossa Senhora do Rosário que me proteja na minha caminhada e não deixo de agradecer a Deus pela pessoa que hoje sou.

            O balanço da minha vida vou fazendo ao longo do ano e os objectivos vou delineando conforme o tempo e as circunstâncias, mas nunca deixando de acreditar na minha boa estrela.

Sempre com fé, vou deixando a vida fluir naturalmente, acreditando que o futuro ainda me reserva muitas coisas boas que na altura certa hão-de chegar!

E viva mais um Ano Novo!...

 


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

A primeira oitava do Natal

VISITA ÀS LAPINHAS

Depois de passarmos todo o Dia de Festa em casa, sem poder ir a nenhum lado, era um alívio e uma libertação quando chegava a primeira oitava. Assim já podíamos ir à ponte ou à casa da madrinha e brincar com os outros pequenos nossos vizinhos.

Naturalmente que cumpríamos o nosso dever de ir à missa neste dia, mas depois do almoço aproveitávamos para percorrer o sítio visitando as lapinhas da vizinhança. Juntávamo-nos com outros pequenos e lá íamos de casa em casa, observando atentamente os pormenores de todas as lapinhas que embora semelhantes no seu essencial eram sempre diferentes de casa para casa.

Havia os pinheiros enfeitados com balões de  soprar de várias cores, outros já tinham uma gambiarra com luzes coloridas que também variavam de uma para outra e as espiguilhas douradas e prateadas.

Os presépios também não eram todos iguais. Alguns eram feitos com papel pintado de castanho a simular as rochas onde pastavam ovelhinhas de vários tamanhos, mas outros eram mesmo construídos com rochas escuras, leves e favadas, cobertas com musgo verdinho, fetos e cabrinhas; também havia os presépios armados dentro de um toco de faia ou de loureiro, onde não faltavam os galhos de pereiro com barbas penduradas a compor o cenário.

 Aqui e acolá sobressaíam os caminhos de farelo por onde caminhavam os pastores a caminho da gruta, ribeiras de algodão branco contorcendo-se por entre os rochedos e um lago também de algodão branco onde nadavam minúsculos patinhos; empoleirado em cima da gruta, marcava presença o galo de crista vermelha e emproada. Todos estes pormenores eram objecto da nossa atenção, não deixando de olhar atentamente para o Menino Jesus que nós sempre comparávamos de lapinha para lapinha, para depois concluirmos qual deles era o mais bonito.

As vizinhas gostavam e recebiam com carinho todos os pequenos que neste dia chegavam à sua casa para visitar a lapinha e costumavam oferecer-nos alguma coisa. Ainda não podíamos beber licor mas havia as broas, uma fatia de bolo ou mesmo uma fatia de pão com manteiga que com boa vontade nós sempre aceitávamos.

E assim se passava a primeira oitava do Natal.





domingo, 24 de dezembro de 2017

O brindeiro da Festa


UM BRINDEIRO COM HISTÓRIA

Antigamente, quando se amassava o pão da Festa também se tendiam brindeiros para colocar na lapinha de escadinha e para as avós oferecerem aos netos mais pequenos.

A  nossa mãe contava que no seu tempo de pequena costumava ir aos Barros na primeira oitava, a casa da sua avó materna, a avó Antónia. A avó oferecia um brindeiro a cada neto e trazia também uma joeira cheia de laranjas e distribuía-as por todos eles.

A cada Natal que se passava na nossa casa, eu ouvia esta história contada pela mãe, enquanto se amassava o pão da Festa. Para nós, enquanto pequenos, a mãe costumava fazer uma rosquilhinha pequena para cada um, mas ainda me lembro de quando a mãe também me fazia uma malinha de pão, a parte de baixo enroladinha como um caracol e com uma asinha mais alta que dava para levar na mão.

Já depois de todos adultos e quando eu ajudava a mãe a amassar o pão da Festa, a mãe costumava fazer um brindeiro para oferecer à tia.

Na última vez que amassámos o pão da Festa na nossa casa, a mãe fez três brindeiros, um para a tia, um para mim e um para Teresa. Parece que ainda estou a ver a mãe com todo o cuidado a tender os brindeiros para que ficassem bem feitinhos.

            Depois disso nunca mais amassámos porque ao ver a tia doente e sem poder fazer sozinha a sua vida  a mãe perdeu a vontade e aos poucos o seu coração também se foi ressentindo.

Uns dois anos depois perdemos a mãe e logo de seguida perdemos também a tia. Foi um Natal muito triste, sem aqueles dois pilhares que sempre tinham sustentado a magia da nossa Festa.

Mas o brindeiro não se perdeu. Ficou tão bem cozidinho que nunca criou bolor e ainda hoje o coloco na minha lapinha.

Os últimos brindeiros feitos com amor e dedicação pelas sábias mãos da nossa mãe.


Funchal, 24-12-2017

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Natal, Natal...


LEMBRAR O NATAL

Esta é a semana que antecede o Natal, aqueles dias em que também nos acompanha uma certa nostalgia. As memórias fervilham sem parar e as saudades desfilam umas atrás das outras, fazendo saltar aqui e ali aquelas lágrimas teimosas que parecem estar guardadas especialmente para estas ocasiões.

Por mais que se tente desviar os pensamentos, lá vem um ou outro pormenor que nos transporta para outros Natais, para um daqueles momentos que nos tocou a alma; para o tempo em que a inocência nos fazia sentir o Natal daquele modo puro e simples, como simples e puro era o Menino Jesus deitado nas palhinhas e que todos os anos olhávamos embevecidos como se o víssemos pela primeira vez.

Mas que graça teria o Natal se não fossem as lembranças e as saudades?

Como poderíamos festejar esta quadra sem nos lembrarmos daqueles que outrora nos ensinaram a sentir o verdadeiro espírito do Natal?

É verdade que hoje celebramos o Natal do século vinte e um, vivido de um modo mais descontraído, festejado muito exteriormente e quase ao gosto de cada um. Mas também é verdade que a mais pura essência do Natal continua a atravessar os tempos, por isso continuamos a festejá-lo de acordo com os valores que nos foram transmitidos desde o tempo de crianças.

Então é natural, quase uma obrigação, que mesmo com saudade e nostalgia nos lembremos com gratidão daqueles que foram os pilares da nossa formação como pessoas e nos ensinaram realmente o verdadeiro sentido do Natal. 







Funchal, 18-12-2017 

sábado, 2 de dezembro de 2017

Era Dia de Natal!...


DIA DE FESTA

            O Dia de Natal era passado em família.

Logo de manhã, quando nos levantávamos, a mãe já tinha a mesa posta com uma toalha nova especial para este Dia de Festa. Era uma matina diferente da dos outros dias do ano: tinha o bolo preto, as broas de mel e os biscoitos de manteiga, o pão de rosquilha e os bolos de noiva, a manteiga no manteigueiro e o queijo redondo de casca cor-de-rosa; no armário não faltava a garrafa da aguardente de caldeira (para oferecer um groguezinho a alguma vizinha que chegasse!!!...) e o licor de baunilha que alguns dias antes a mãe havia feito. Era uma alegria chegar à cozinha e encontrar a mesa assim cheia de coisas boas. E às vezes a mãe ainda fazia a graça de nos dar a beber meio copinho de licor, só porque era dia de Festa.

O almoço também era diferente do que estávamos habituados.

Primeiro vinha a canja de galinha, com massa de cabelo ou de estrelinhas, e quase sempre trazia os ovinhos que estavam dentro da galinha; como todos nós os queríamos a mãe sabiamente dividia-os igualmente pelos nossos pratos e assim contentava a todos. Depois vinha a carne de galinha guisada com semilhas americanas (das mais miudinhas porque ficavam mais gostosas), a carne de vinha d’alhos com aquele molhinho no fundo da panela e o arroz branco com um pauzinho de canela que só a mãe sabia fazer.

O almoço decorria com calma, sem pressa porque o tempo assim o permitia, e ninguém podia levantar-se da mesa enquanto o pai e a mãe não acabassem de almoçar. Então vinha o momento de rezar pelos nossos avós e outros familiares que já haviam partido deste mundo e agradecer ao Menino Jesus por nos ter deparado a fartura que tínhamos à mesa neste Dia de Festa.

Depois do almoço passávamos o dia em casa. O Dia de Festa era dia de estar em família e mesmo não ficava bem visitar quem quer que fosse neste dia; nem à casa da madrinha podíamos ir. Os rapazes sempre conseguiam dar uma fugida até ao largo da ponte, onde junto com outros rapazes nossos vizinhos se entretinham a atirar bombas cujos estalos ouvíamos por todo o lado e até retiniam quando as arremessavam para dentro da levada, entre a nossa casa e a da vizinha do lado. Mas nós, as raparigas tínhamos mesmo que passar o dia todo em casa o que era muito aborrecido, ainda mais se estivesse um daqueles dias de Inverno. Entre uma fatia de bolo, umas broas ou um dentinho de queijo, lá se passava o tempo, ouvindo as histórias que a mãe contava de outros natais e sorrindo com as peripécias da mãe e dos tios quando eram pequenos em casa da avó Silvéria nas Fontes, até que o tempo escurecia e chegava a noite.

A noite e o tempo frio sugeriam que nos agasalhássemos ainda cedo dentro de casa; fechava-se a porta da cozinha e assim as conversas continuavam à volta da mesa, no calor da lareira, enquanto a mãe aquecia o jantar e fazia uma panela de chá preto (o verdadeiro chá do Ceilão que vinha naquela caixinha cor-de-rosa) que todos bebíamos logo depois do jantar, saboreando aquele travo especial e único. E como a noite era longa, ainda havia tempo de sobra para uma partida do jogo da bisca em que o pai comandava a equipa; como a bisca era de quatro, quem perdesse saía e entravam outros, mas o pai jogava sempre.

Assim se passava mais um Dia de Festa, com verdadeiro espírito de Natal!...

 

 




Funchal, 02-12-2017